O Son é concreto...

10:00 da manhã Angelo Barbosa 0 Comments

Declaro ter interrompido a escrita por enquanto, porque embriaguei-me no álcool do som...... poesia é ácido ....corrói e deixa-nos em carunjos sem serventia, para, sequer voltar na cova... fiz, mas agora detesto.

Não quero ser corroído, nem moído pelo verbo trucidar e ficar trotxida no prato sem paladar diante dos olhos do comedor.

O rompimento com a literatura é um tratado que acabo de exercitar e assinar com o papel e a caneta e com o vício de escrever, doença que mata ao devele. Rotunda, não. Rotura, sim. Não sei viver sem roturas. Rompo sempre que o boi se estafa diante do vermelhão do toureiro ou das voltas do trapiche ou mesmo das cantigas repetidas na voz do espicaçador do boi. Só os deuses não se estafam.

Os esperançosos, também não. Escrevam, vocês! Escrevam, escribas, poetas e prosadores que eu vou para a taberna onde o violão não pára, onde a algazarra e o som são mais vida que o papel e o comboio de letras na frente, desfilando fantasias, sonhos e evasões. O som é concreto. Quando se erra na nota, cobra-se no momento, quando não se acerta no verso, improvisa-se, remenda-se, dá-se o salto ou então suspende-se e cantarola-se.

O verso é escada de chatices da alma, enquanto som é estrada para se chegar à alma, seja que alma for - santos ou pecadores - . O som é caminho do inferno, da sabura, do esquecimento, do extasie, enquanto a poesia é tropeçar na margem do rio que não se conhece, que não tem nome, nem foz, nem mar que trave o perigo do seu veneno.

Não quero ser corroído pela poesia, antes comido pelo grogue no embalo duma morna sentida ou tido por herege ao som duma coladeira.
Quero ser o terreiro livre sem rei nem mandão, longe, mesmo longe dos escribas.

Texto de Kaká Barboza - http://luzkarbarboza.blogspot.com/2015/09/em-declive-acelerado-declaro-ter.html

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