A esplanada da Praia em Santiago de Cabo Verde
no dia 29 de Janeiro de 1971
é uma hipótese de bomba termonuclear
de que não se calculou a ogiva
é o projecto de um foguetão apontado para a lua
que nunca chegou a partir
(ficou só o esboço da rampa
que não foi concluída)
A esplanada da Praia – mesmo em dia de sol e suão –
seria um oásis magnífico e fresco
se a nossa fé (que remove montanhas)
fosse um milésimo do grão de mostarda
E haveria café
sem que se fosse plantar um cafeeiro
na cabeça do gerente que entra e que sai
e à noite regista os proventos do dia
A esplanada teria um leite mais branco
e clientes catitas e empregadas bonitas
e baixaria para uma média razoável o número de pedintes
e caçadores de beatas
e haveria por certo uma clínica ali perto
e remédios para tudo (até para os males sem cura)
A esplanada teria um helicóptero para os poetas dilectos
e o chafariz ao lado não teria secado
E haveria cisnes brancos a boiar todo o tempo
e até um jardim suspenso
com tulipas de estufa e girassóis
A esplanada teria aviões de jacto à distância de um braço
ali – no coreto da praça –
que só tem músicos de banda e bombo
a cinquenta mil-réis por semana
A esplanada teria um odor a DDT perfumado
e talvez uma catedral feita por Óscar Niemeyer
(tão diferente da igrejinha do lado
com suas quatro paredes quadradas
e uma cruz tão fora da moda)
A esplanada da Praia seria uma maravilha do mundo
por cuja abóbada cristalina e bordada
as estrelas chegariam coloridas até nós
A esplanada, por fim, teria outro nome
– Morabeza, sem dúvida, é um termo inventado
para ali estar como luva ou sapo imbecil
(estou mesmo a vê-lo, sobre o balcão, a turvar o aquário)
Pelo que ficou dito
e pelo que não –
talvez fosse oportuno morrer aqui e agora
em vez de comemorar minhas três décadas de vida
a sonhar com champanhe e caviar
na esplanada da Praia em Santiago de Cabo Verde
no dia 29 de Janeiro de 1971.
Arménio Vieira
Prémio Camões











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