terça-feira, janeiro 31, 2012

Special One


Li com interesse o bom texto do Margoso e o "especial São Vicente" que saiu no Jornal a Semana.

Confesso que, no caso do jornal, estava à espera de uma abordagem nova do "problema" de São Vicente, já que caras novas opinaram sobre a situação da ilha.

No entanto, acho que voltou uma vez mais a mesma forma de ver a questão e que em nada difere do que muitos já chamaram de "saudade" daquele Mindelo que era privilégio de apenas alguns locais. Inclusive com afirmações sobre as causas do declineo de São Vicente, que pessoalmente gostaria de ver pessoas entendidas a rebaterem.

Era o tal tempo que em termos nacionais, Mindelo era tipo Paris, ou seja uma cidade que produzia e consumia a sua própria luz e nunca se preocupou com a míngua que se passava no interior de Santiago, no Fogo ou no Maio.

Era o tal tempo em que era o único espaço nacional aonde se sabia o que era manteiga castelo, queijo flamengo, presunto, chocolate, pão, whisky, licores, chás, paté, maionese e outras delicias, montras, navios, luz eléctrica, alcatrão, repucho na praça, banda aos domingos...

A primeira vez que fui a Mindelo, vi meus primos a jogarem futebol todos equipados com uniforme à Benfica, vindo directamente de Portugal. Contei ao pessoal em Assomada, queriam me bater por acharem que era invenção de alguém "ki salta agu mar". Na vila era tipo "camisa contra sem camisa".

Dá a impressão de que há um pessoal de Mindelo que mantem um discurso que manipula o entendimento dos sanvicentinos sobre a sua realidade, induzindo uma lógica de espaço com privilégios próximos de divino e que não lhes permite pensar fora disso.
Mindelo de hoje é diferente. Não tem mais o privilégio de ser único. Terá de saber estar com Santo Antão à porta, com São Nicolau, Sal e Boavista que não mais pedem a abenção da fantasia Mindelense para andarem. Como disse um comerciante em Santo Antão, graças ao seu telemóvel, liga directamente para o fornecedor em Lisboa. Outros tempos!

Mindelo, esta cidade real e que encanta a todos nós, tem valor para vender a Cabo Verde e terá que descobrir qual é este negócio tão esperado. Pode estar em explorar o seu lado cosmopolita, no lobbying do seu potencial humano de peso e sua sobeja criatividade. Resta fazer um package disto tudo.

Com esta coisa de chorar o "tempo da gemada" em que o prato era único, nunca mais saimos desta.

Entretando, a questão do modelo de governação de Cabo Verde é agenda sim e talvez seja o nosso maior desafio. Não para resolver o caso "Mindelo como special one", pois a dor de Mindelo não é mais dor do que a da Brava. Mas para se resolver um problema que atinge a todos.

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2 comments:

Anónimo disse...

Djinho, se podes dizer isto:
"Era o tal tempo que em termos nacionais, Mindelo era tipo Paris, ou seja uma cidade que produzia e consumia a sua própria luz e nunca se preocupou com a míngua que se passava no interior de Santiago, no Fogo ou no Maio".

Eu tb posso dizer isto:

"Era o tal tempo que em termos nacionais, Sal era tipo St Tropez, ou seja uma "cidade" que produzia e consumia a sua própria luz e nunca se preocupou com a míngua que se passava no interior de São Vicente, no Fogo ou no Maio."

Todos podemos dizer coisas sem nexo.
Como é que uma ilha se "preocupa"? Isso existe? Tipo o vulcão do fogo por vezes fica furioso? É isso que querias dizer?

Ou estás a insinuar que as pessoas não se preocupam? Se é isso, descobriste a pólvora no tempo de guerra. E TU estás preocupado, não é???


El bandid

Nélida disse...

Oi Tio,
concordo absolutamente com o texto.
O discurso dos mtos estudantes de são vicente cá em Lisboa vai também na mesma onda!
Defendendo um São Vicente "injustiçado", com argumentos sem fundamento.
A meu ver São Vicente esteve durante muito tempo mergulhada numa falsa realidade de "glamour" e está colhendo os frutos agora (porque "glamour" não mata fome).
Existe sim valor na minha ilha natal de que tanto gosto! Mas é preciso as pessoas descerem á terra...

um beijnho grande