Posted by : djinho barbosa Friday, June 10, 2011

Caetano Veloso escreve sobre Lévi-Strauss



Citei Lévi-Strauss nominalmente em “O estrangeiro”. Era a famosa frase depreciativa da Baía de Guanabara. Em “Tristes trópicos”, ele diz que ela “parece uma boca desdentada”. Citei-o também, indiretamente, em “Um índio” (“num claro instante”), “Tem que ser você” (“o amor-mentira” é a tradução que ele fez do modo como os nambiquaras se referem ao homossexualismo masculino praticado pelos jovens da tribo), “Fora da ordem” (“aqui tudo parece que ainda é construção mas já é ruína”) e no filme “O cinema falado”: a frase em que Luiz Zerbini diz “Picasso não é um bom pintor; por causa dele se negligenciou toda uma tradição de adestramento nos ateliês” é tirada de uma entrevista que ele deu sobre arte moderna. As outras citações vêm todas de “Tristes trópicos”, um livro extraordinário, que ficou sempre todo vivo na minha lembrança: eu o li em 1967 e até hoje não preciso nem olhá-lo para lembrar cada trecho, cada ideia.

Li também outros livros dele depois. Sempre com grande admiração. O caleidoscópio de mitos em “O cru e o cozido” é uma maravilha, mas a introdução sobre a música me marcou mais. Ele não gostava de cultura pop e não gostaria de ser citado por um cantor brasileiro, mas eu me senti sempre atraído pelo seu pensamento e seu estilo. Modestamente, me refiro a ele com familiaridade. Eu gostava também de ele ser longevo. E do jeito de ele falar, como um judeu sábio e irônico. Mas me agastava com as reações dele contra a arte de vanguarda. Embora não ache seus argumentos nesse campo propriamente desprezíveis.

Meu analista, MD Magno, diz que todo o papo de linha entre natureza e cultura traçada pela proibição do incesto é furado. Me convence. Mas Lévi-Strauss foi uma das mentes mais lúcidas e um dos estilos mais elegantes com que tomei contato em minha vida adulta. Em “Saudades do Brasil” ele fala com carinho das possibilidades de grandeza de civilizações amazônicas pré-cabralinas. Agora eu sinto que o Brasil sente saudades dele (que foi um crítico duríssimo da nossa vida “civilizada”). Fonte aqui.http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2009/11/03/caetano-veloso-escreve-sobre-levi-strauss-237933.asp
 
 
O Estrangeiro (Caetano Veloso)


O pintor Paul Gauguin amou a luz da Baía de Guanabara

O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela

A Baía de Guanabara

O antropólogo Claude Levy-strauss detestou a Baía de Guanabara:

Pareceu-lhe uma boca banguela.

E eu menos a conhecera mais a amara?

Sou cego de tanto vê-la, te tanto tê-la estrela

O que é uma coisa bela?

O amor é cego

Ray Charles é cego

Stevie Wonder é cego

E o albino Hermeto não encherga mesmo muito bem
Uma baleia, uma telenovela, um alaúde, um trem?

Uma arara?

Mas era ao mesmo tempo bela e banguela a Guanabara

Em que se passara passa passará o raro pesadelo

Que aqui começo a construir sempre buscando o belo e o amaro

Eu não sonhei que a praia de Botafogo era uma esteira rolante de areia branca e de óleo diesel

Sob meus tênis

E o Pão de Açucar menos óbvio possível

À minha frente

Um Pão de Açucar com umas arestas insuspeitadas

À áspera luz laranja contra a quase não luz quase não púrpura

Do branco das areias e das espumas

Que era tudo quanto havia então de aurora
Estão às minhas costas um velho com cabelos nas narinas

E uma menina ainda adolescente e muito linda

Não olho pra trás mas sei de tudo

Cego às avessas, como nos sonhos, vejo o que desejo

Mas eu não desejo ver o terno negro do velho

Nem os dentes quase não púrpura da menina

(pense Seurat e pense impressionista

Essa coisa de luz nos brancos dentes e onda

Mas não pense surrealista que é outra onda)

E ouço as vozes

Os dois me dizem

Num duplo som

Como que sampleados num sinclavier:



"É chegada a hora da reeducação de alguém

Do Pai do Filho do Espírito Santo amém

O certo é louco tomar eletrochoque

O certo é saber que o certo é certo

O macho adulto branco sempre no comando

E o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo

Reconhecer o valor necessário do ato ipócrita

Riscar os índios, nada esperar dos pretos"

E eu, menos estrangeiro no lugar que no momento

Sigo mais sozinho caminhando contra o vento

E entendo o centro do que estão dizendo

Aquele cara e aquela:

É um desmascaro

Singelo grito:

"O rei está nu"

Mas eu desperto porque tudo cala frente ao fato de que o rei é mais bonito nú



E eu vou e amo o azul, o púrpura e o amarelo

E entre o meu ir e o do sol, um aro, um elo.

("Some may like a soft brazilian singer

but I've given up all attempts at perfection")

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