Um debate alargado para as Artes e as Cidades

9:28 da manhã Angelo Barbosa 1 Comments



Artigo publicado no jornal A Nação de 25/06/09

Nestas semanas têm sido calorosos e em boa hora os debates sobre a questão da cultura, da arte nacional e da gestão da cultura. Neste momento de formação da universidade pública no país, a UniCV não podia ausentar-se desta arena. Por este motivo o recém-criado Centro de Investigação em Desenvolvimento Local e Ordenamento de Território da Universidade de Cabo Verde (CIDLOT), vem a público engordar o debate.

Assumimos o CIDLOT trazendo a nossa formação transdisciplinar, a nossa larga experiencia em arquitectura, desenvolvimento urbano e cultura, as nossas teses de mestrados e doutoramentos, e principalmente, a nossa vontade de suscitar um aprofundamento de questões importantes para a consolidação de uma reflexão urgente no país: arquitectura, cidades e identidade. A urgência não é apenas uma questão interna, mas é saber como Cabo Verde vai se posicionar face às fortes pressões internacionais em tempos de globalização. Qual será a capacidade argumentativa quando empreenderores estrangeiros e organismos internacionais vem oferecer os seus préstimos? Será Cabo Verde o país que tudo aceita? Ou será um país pronto para negociar em pé de igualdade o direccionamento que pretende para si? Estas são algumas das perguntas prementes para nós.

Se alguns artigos já foram escritos sobre a produção artística, aproveitamos para adicionar ao debate a produção arquitectónica e das cidades. Sabemos que a arquitectura é a materialização espacial dos valores simbólicos e culturais de um povo. Como tem vindo a ser a produção arquitectónica de Cabo Verde nos últimos anos? É possível imaginarmos que estas produções podem representar o país em debates internacionais? Qual é o alinhamento e aprofundamento entre o respeito às tradições e inovações contemporâneas propostas? E as cidades, como estão a ser ocupadas? Como é que Cabo Verde se posiciona no contexto lusófono, africano e mundial acerca destas temáticas? Devemos aceitar em nome do “desenvolvimento” projectos que já se mostraram devastadores em outras partes do mundo? Como tem sido feita a reflexão crítica dos governantes, ordens profissionais, formadores de opinião e população a este respeito?

Acreditamos ser a universidade uma plataforma por excelência para a construção deste diálogo, para a desconstrução daquilo que é imposto com poucos questionamentos. A universidade é o lugar das dúvidas, por excelência. Neste sentido, procuramos trilhar, no CIDLOT, um caminho de transposição das certezas universais, do certo e do imutável. Juntamente com as nossas experiências que colocamos a este serviço, pretendemos trazer uma ampla rede de colaboradores locais e externos, não para apresentar soluções, mas para alargar o debate interno sobre questões de desenvolvimento local, ocupação de território, cultura, arquitectura, artes, cidades e identidade.

Dentre os vários eventos que vimos propor ao público nacional ao longo deste ano, começamos com um pequeno debate sobre Arte, Ocupação de Território e Desenvolvimento Local, com cinco artistas, activistas e documentaristas internacionais, que, com artistas e activistas locais, estarão reunidas numa oportunidade única, na cidade da Praia e em Mindelo nos primeiros dias de Julho.

A relação entre arte e ocupação de território tem sido um intenso debate internacional pelo menos nas últimas duas décadas, quando a ocupação do território (urbanos ou pequenas comunidades) passou a constituir uma relação simbiótica e indiscernível com a arte. Trata-se menos de construir objectos e mais de produzir conhecimento e relações sociais, numa dimensão na qual é cada vez mais delicada a separação arte, ocupação do território e vida. Quem tem acompanhado esta discussão sabe o que significam os trabalhos de Krystof Wodizcko, Antoni Muntadas, Okwui Enwezor, Josep Subiros, Mauricio Dias e Walter Riedweg, Dennis Adams, Richard Serra, Robert Smithson, Rosalyn Deutsche, Rosalind Krauss, e projetos como Arte/Cidade, InSite e TAMA, para citar alguns.

Com o objectivo de melhor compreender esta relação é necessária uma digressão acerca do espaço urbano, e das suas composições e configurações contemporâneas, que serão fortemente trabalhadas por alguns artistas a partir do último terço do século passado. Ao mesmo tempo, vale a pena se deter num panorama geral de como as questões espaciais tem sido tratadas na arte, desde uma preocupação representacional até ao uso do espaço como agenciador de relações e de activismo. Alguns projectos originados nas artes visuais, com fundamentos teóricos e estéticos decorrentes da experiência minimalista e conceitual a partir dos anos 60 e 70, têm colaborado para a formação de um conhecimento sobre a cidade nos dias de hoje, aferida como um grande sistema em movimento. Há um ganho de complexidade, nas últimas décadas, na relação contemporânea entre arte e espaço urbano, na qual a cidade deixa de ser o ‘locus’ para disposição de ‘obras de arte’ para ser ela mesma a dimensão simbiótica entre arte, política e vida.

É num cenário de ocupação espacial desigual entre os mais abastados e aqueles totalmente despossuídos que as relações são intensificadas e os contrastes do processo de globalização económica aparecem. Será que a arte contemporânea tem-se configurado como um importante instrumento de resistência e reflexão crítica destes processos ou tem-se submetido à força da produção económica sob o modelo neoliberal? Como é que estas questões podem ser debatidas em Cabo Verde?

As experiências trazidas por Nele Azevedo (Brasil), Célia Antonacci (Brasil), Dominique Malaquais (França), Kadiatou Diallo (África do Sul) e Nazia Parvez (Serra Leoa), em debate com trabalhos desenvolvidos por artistas nacionais nos ajudarão a reflectir sobre esta questão, amadurecendo uma interface de colaboração em Cabo Verde, entre arte, ocupação do território e desenvolvimento local.

Ao promover uma série de debates, a partir das mais diversas abordagens, sobre desenvolvimento local e ordenamento de território, a Universidade de Cabo Verde, através do CIDLOT, vem trilhar um importante papel no cenário público nacional ao mesmo tempo em que se posiciona internacionalmente sobre questões contemporâneas.



Andreia Moassab e Patrícia Anahory,

do Centro de Investigação em Desenvolvimento Local e Ordenamento de Território da Universidade de Cabo Verde.

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1 comments:

Anónimo disse...

Oi Djinho
E quando teremos o privilégio de ter acesso a esse debate? Em Livro, Net, ou Podcast? Seria útil e urgente abrir o debate ao público, pela actualidade e pertinencia do tema. Basta olhar para a nossa cidade da Praia, e percebe-se porquê?
1Gr Ab
Alex