Sobre a entrevista do Hernani e comentários!

12:27 da tarde Angelo Barbosa 8 Comments

Li a entrevista do Hernani e tenho acompanhado os comentários colocados no Blog do João Branco.

Deixo aqui, para registo, o que acho, para ficar tranquilo comigo mesmo.
Achei muito interessante a entrevista. Hernani tocou frontalmente os temas.

Discordo também frontalmente quando, sobretudo se refere a Princesito como "não músico" (espero ter percebido o que Hernani quis dizer).
Seria então de se perguntar se Manuel D´Novas, Kaká Barbosa, Nhelas Spencer, Ildo Lobo e outros também não são músicos. Uma boa discussão poderia ser travada a este nível.

Será que estamos a falar de instrumentistas com uma capacidade maior de execução?

Quanto à questão da ousadia...a meu ver a ousadia sempre existiu no músico caboverdiano.
Desde B.Leza, Kolá, Bulimundo, Tubarões, Abel Djassi, Mindel Band, Pantera, Tcheka, Vadú, Princesito até Hernani sempre alguma ousadia esteve presente.

Aliás Afronami é também resultado da ousadia.

Vejo em alguns dos coments aquela inércia do hofolote fixo a norte quando insistem no centrar quase que exclusivamente nas qualidades do Hernâni quando analisam o disco do Princesito.

Das excelentes qualidades musicais do Hernâni ninguém duvida. Disso já fiz referência neste espaço por exemplo aqui.

Agora, o que acho pouco justo é quando as pessoas procuram ignorar o elemento fundamental que caracteriza o trabalho do Princesito: o conteúdo.

Spiga, gravado ou com as batucadeiras de Tchada Grandi Trás, com Ricardo de Deus, com Kisó, com Humberto, com Kim Alves, com Paulino Vieira seria também a meu ver um grande sucesso. É que Princesito estava destinado a “explodir”, exactamente pelo conteúdo e por o que ele representa para um certo imaginário caboverdeano.

Ignorar isto é faltar respeito a um músico e não procurar perceber a sua obra. A obra de Princesito constitui por si também uma grande oportunidade a Hernâni para expôr as suas qualidades. E mais. Hernani tem sido inteligente em procurar também a sul, espaços inovadores para explorar e ousar a sua musicalidade. Este contacto com Princesito de certeza abriu horizontes.

Por isso, poupem o Hernâni com esta coisa que se revela já caduca de tentar mitificar músicos, reservando-os a espaços geográficos abençoados típico de um tempo em que havia muito pouca gente com qualidade na praça nacional. Pelo que conheço da pessoa, o próprio músico não está interessado nisso.

A parte central da entrevista, e que a meu ver nos leva ao outro lado da ousadia, é quando Hernani fala da necessidade do ensino. A grande questão é realmente esta. Estamos a chegar a um ponto em que os reis que uns e outros parecem ter na barriga deve começar a dar lugar a uma nova etapa: ver a música como um conhecimento que também deve exigir estudo, dedicação e seriedade. E fundamentalmente a construção de espaços para se tocar e aprender.

Na verdade, a recente vinda tanto de Humberto Ramos e depois de Carlos Modesto e os workshops que deram na Praia e em Mindelo foram prova disto. Nestes eventos estiveram presentes práticamente a "nata" de músicos locais.
Todos foram unânimes em admitir que falta esta dimensão da formação sistematizada na música se realmente queremos fazer outros sons.
Todos, mas todos, precisamos encarar a hipótese de estudar se realmente queremos empurrar os limites da ousadia para além do confortável como bem disse Hernani.

É um desafio geral.

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8 comments:

João Branco disse...

Djinho, excelente post.

Algumas considerações:

1. A entrevista do Hernani colocou alguns interessados a conversar sobre aspectos importantes e saindo um pouco do blá blá blá geral. Só por isso, foi bom ele ter dito o que disse da forma que disse.

2. Já falei com ele pessoalmente e ele admite, como pessoa inteligente que é, que haja quem não concorde com ele. Isso é perfeitamente natural e só ajuda a avançar a discussão.

3. A questão da formação é nuclear. Vimos isso no Fórum. A grande maioria dos nossos músicos vive do empirismo, e tem pouca formação técnica, e menos ainda teórica. Pior, muitos não estão interessados em aprender e alguns, acham que não precisam de aprender mais nada, o que ainda é pior.

4. Alguns valorizam mais o trabalho do produtor, outros do músico que dá a capa. Isso é normal em qualquer parte do mundo. Fazer disto mais uma guerra "artificial" Norte - Sul, é passar completamente ao lado do que realmente importa.

5. E quem se escuda nessa argumentação caduca, é porque não tem muito mais a acrescentar a esta interessante conversa.

6. Pelo menos este assunto colocou o Djinho a escrever um post bem mais comprido que o habitual, e ele escreve bem e entende do assunto!

Valeu. Um abraço!

Anónimo disse...

Agradeço teus coments aqui João.
Sobre escrever mais, gostaria mesmo era de especializar-me em escrever duas linhas...

Djinho

Anónimo disse...

..;é verdade Djinho as vezes os reais problemas podem passar despercebidos, quando debruçamos sobre "questoes menores"(norte /sul por exemplo), problema que certamente o hernani não tem, se vermos que a maior parte dos artistas com quem trabalha são do"sul", e que ele certamente nem pensa nesse detalhe (norte sul)...Mas a questão da formação mereceria mais holofotes... sabendo que começamos ter gente com formação acho bem, enquanto não chegam os conservatorios, que se façam workshops ...
Hiena

Anónimo disse...

Caro Hiena, eu até pedia-te uma daquelas tuas boas "caricaturas" fixe para colcoar neste post...topas?

envie para djinhobarbosa@gmail.com
agradeço
Um abraço

Os comentários lá na tasca do João mostra o quanto de "achismo" temos na arte caboverdiana. Falando de arte, todos se arrogam donos da verdade. Mostra como nós (CV) podemos ser tão pretensiosos.

Temos que lembrar uma coisa: na arte, para além da apreciação estética (gostar/não gostar), todo o resto é técnica e conceito. É por isso que a questão da escola é tão importante: para nos fornecer os conhecimentos para criticar, mas para nos dar a consciência do nosso "atrevimento".

Quanto ao Hernâni, acho até que else se inibe de fazer análises mais profundas, porque sabe que nós somos muito "sensíveis" e desatamos logo a chorar se algo fala forte na nossa cara.

João Branco disse...

Na mouche, César.

Anónimo disse...

1. César, desculpa lá, mas a estética na arte nunca é simplista e não é movida puramente pelo gosto. Passa toda ela pelo dominio dos conceitos, pelo apuro da sensibilidade que, quase sempre, extrava o gosto (de olhar, e sentir). Devemos todos dar a cara aos livros, aos nossos cutelos e ao mundo e deixar de falar facilidades.

2. O texto do Djinho está com tudo, e este é mais um debate blogal que, infelizmente, pode ganhar contornos desagradáveis. O Djinho, como sempre, abarcou os ditos e os não ditos. Muito bom.

3. Hernani é livre para dizer da sua verdade, e ninguém deve sentir-se chocado com isso, até porque a opinião do Hernani, um bom músico, não faz escola, ainda que tenha sido alinhava num dos seus bancos.

4. Princezito é um artista completo.

Abraços

xaquitim disse...

Boa tarde. Só uma pergunta de alguém que não tem formação em "arte" e maioritáramente só entende a parte estética: a respeito da afirmação "Ignorar isto é faltar respeito a um músico e nao procurar perceber a sua obra"..Eu não tenho liberdade para perceber uma obra da minha forma? Isso é enfraquecer o conteúdo que nós achamos que devia ter-me apercebido?

César, será mesmo que não deve haver "achismos" na apreciação da arte? Então um artista só quer apreciado por quem entende de música? (Retiro minha pergunta se estiveres a referir-te somente aos comentários mal intencionados, mas realmente não percebi isso).

Abraços.