Da Boca do Poeta!

8:46 da manhã Angelo Barbosa 3 Comments

















"Por uma questão de opção (sem menosprezo pelo que se faz por lá), eu normalmente não leio Poesia Caboverdeana. Mas, acho que neste momento há dois ou três Poetas da nova geração que estão a fazer um trabalho bastante bom... Daqueles mais antigos, eu citaria o João Vário, o Arménio Vieira... Dos meus contemporâneos, era capaz de falar do Valdemar Velhinho Rodrigues, o Vadinho, e do Filinto Elíseo que publicou dois livros aceitáveis, e um terceiro, o «Das frutas Serenadas», que representa um salto de qualidade enorme na sua Poesia."

"Aliás, a mim parece-me absolutamente incompreensível (e aí a culpa não é só do estado) que não exista um prémio nacional de literatura (os da associação de escritores, pelo seu baixo valor e incerteza na atribuição, não preenchem tal lacuna) ou uma rede de livrarias minimamente decente.A atenção à cultura não pode centrar-se sobretudo em aspectos celebrativos ou comemorativos e na medalhação desenfreada e inconsequente."

"Aliás, nesses finais dos Anos 80, a Praia estava efervescente em termos literários. É curioso que hoje na Literatura, os novos valores sejam sobretudo da Ilha de Santiago... Isto, sem qualquer sombra de bairrismo, porque sou um caboverdeano de corpo inteiro e alma imensa: é só para tentar desmistificar as ideias erradas que por aí circulam. Aproveito para contestar as afirmações difundidas há tempos, por um universitário francês - ao falar dos Anos 80 em Cabo Verde - dando uma proeminência enorme à Revista Ponto e Vírgula (editada em S. Vicente), esquecendo-se das coisas que se passavam na Praia. Se formos a ver bem, a Ponto e Vírgula produziu um Escritor, o Germano de Almeida, enquanto as revistas da Praia suscitaram o aparecimento de uma plêiada deles, de que vou citar alguns nomes – Valdemar Velhinho Rodrigues, Filinto Elísio, Dina Salústio, José Luís Hopffer Almada, Dany Spínola, enfim, gente com mais ou menos qualidade e que é a cara da Literatura Caboverdeana de agora."

"A Música Caboverdeana nunca se preocupou muito com a Poesia dita erudita."

"O discurso dos nossos políticos acentua que a Cultura é a pérola de Cabo Verde, mas na prática parece que essa pedra preciosa anda a ser atirada aos porcos. Não vejo um investimento significativo na Cultura de Cabo Verde. Aquela Cultura que se projecta, é à custa de si própria, pela sua qualidade, e não por que haja um programa ou um investimento coerente nesse campo."

Ler entrevista completa.

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3 comments:

Paulino Dias disse...

"Por uma questão de opção (sem menosprezo pelo que se faz por lá), eu normalmente não leio Poesia Caboverdeana".

Óh Djinho, se tiver aí o e-mail do JLT diga-lhe por um especial favor que gostaria muito de ouvir as suas razões para tal opção. Eu, um leigo nesta coisa de tecnicidades da poesia (isso existe?), que vez ou outra consome poesia, não se importando por vezes nem com quem assina quanto mais a nacionalidade que ostenta (bastam-me as palavras; as palavras e a música quando as há, porra!), gostaria de um pouquinho mais de esclarecimento.

Caramba!, que me deixou com a pulga atrás da orelha, o nosso poeta...

Abraços,
Paulino

José Luiz Tavares disse...

Primeiro, aproveito a oportunidade para saudar o apreciável cronista, Paulino Dias.


Não sei se o Paulino leu a entrevista completa, mas fico satisfeito por saber que em relação às substantivas e prementes questões, como a do crioulo e do bairrismo, por exemplo, o amigo não tem (pelo menos não é da ordem do manifesto) um pensamento divergente.


Quanto à pulga atrás da orelha, como hoje faço anos e estou de muito boa disposição (coisa que nem sempre me acontece), vou tentar ajudar amigo a enxotá-lo, porque o bicho é chato: se eu tivesse que dar satisfações sobre o que leio e o que não leio (coisa muito da idiossincrasia e do arbítrio de cada um, seja ele poeta ou não) diria ao amigo que a resposta é ou encontra-se nos meus livros; que não sei se terá lido ou não, dada a dificuldade de circulação em cabo verde dos livros que são editados cá fora.


Quanto à questão da tecnicidade na poesia (ou nas artes em geral), seria matéria para intermináveis dissertações. Em todo o caso, remetia-o para o longo e substantivo capítulo «a deserção das musas - meditação poética em chave lírica» do meu segundo livro «Agreste Matéria Mundo», ou para uma entrevista publicada em suplemento especial no antigo jornal horizonte, em setembro de 2004, aquando do meu regresso a cabo verde, depois de quinze anos na estranja. A referida entrevista encontra-se também nos arquivos da www.storm-magazine.com (julho/agosto 2004).


Espero que estas indicações possam ajudar a dissipar alguma das perplexidades do amigo, sem, no entanto, deixar de afirmar a radical liberdade de ler e escrever sem prestar nenhuma contas a nenhuma cartilha identitária, pois é essa liberdade e essa radicalidade que se encontram no cerne de toda a criação autêntica.


Aceita um abraço fraterno deste camarada de ofício.

José Luiz Tavares

JLT disse...

ERRATA: onde se lê «sem prestar nenhuma contas a nenhuma» deve-se ler « sem prestar contas a nenhuma»

JLT