segunda-feira, janeiro 07, 2008

E ESTA!

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Opinião: O declínio francês, visto dos Estados Unidos

Antoine Compagnon*

"A morte da cultura francesa": esta é a manchete da capa do mais recente número da edição européia da revista "Time" (3 de dezembro de 2007).

A edição americana, por sua vez, não considerou relevante reproduzir o artigo: a sua abstenção confirma que, do ponto de vista da Entertainment Industry (a Time Warner é também proprietária do AOL, da HBO e da CNN), a cultura francesa está desde já devidamente enterrada - decididamente nula e desprovida de qualquer interesse.

Este antigo refrão está bastante surrado. Há três anos, a revista literária "London Review of Books" publicava dois artigos contundentes de Perry Anderson sobre "A decadência da França" (nos dias 2 e 23 de setembro de 2004). O sociólogo marxista da UCLA (Universidade da Califórnia, em Los Angeles) relatava a existência de um grande número de livros franceses a respeito do nosso declínio em todos os setores do conhecimento e da cultura. Estávamos vivenciando um final de reinado.

Depois de alguns meses de observação, a eleição de Nicolas Sarkozy parece não ter mudado nada. Isso porque nós costumamos oferecer o chicote para sermos castigados por quem se dispuser a isso, especulando sem parar a respeito do nosso próprio crepúsculo. Por que então os meios de comunicação estrangeiros não se mostrariam sensíveis a esses apelos?

Don Morrison, o diretor responsável da edição européia da "Time", não encontrou nenhuma dificuldade para enumerar os sintomas do mal cultural francês:

- 727 novos romances chegaram às livrarias francesas na volta às aulas de 2007, mas menos de uma dúzia de obras costumam ser traduzidas nos Estados Unidos anualmente;

- Cerca de 200 filmes por ano são produzidos na terra de Asterix, mas uma proporção de 50% das receitas de bilheteria no circuito francês é faturada pelo cinema americano;

- Paris foi abandonada pela criação musical e pelo mercado da arte (a gente se consola como pode, por exemplo, com a atuação de François Pinault como proprietário de casa de leilões Christie's).

Tudo isso apesar de um orçamento desproporcional para a cultura (1,5% do produto nacional bruto - PNB -, contra 0,7% na Alemanha, 0,5% no Reino Unido, 0,3% nos Estados Unidos). Resumindo, nós temos uma cultura que respira com ajuda de aparelhos, amplamente subvencionada pelo Estado, as regiões ou os municípios, mas que não apresenta interesse algum fora das nossas fronteiras.

As causas deste isolamento foram lembradas: o francês decaiu e não passa mais da décima segunda língua falada no mundo; a cultura de Estado desestimula as iniciativas privadas; os subsídios fazem com que a criação siga vivendo na pobreza no interior do país e incapaz de enfrentar o mercado mundial; o Novo Romance e a teoria literária esterilizaram a ficção, de tal forma que os franceses preferem ler romances americanos épicos.

Sem dúvida poderíamos argumentar que Paris continua sendo o destino predileto dos turistas de todos os países, dos norte-americanos em particular, que o francês continua sendo a principal língua estrangeira ensinada nos Estados Unidos (uma vez que o espanhol deixou de ser uma língua estrangeira neste país); ou ainda que o livro "Suite Française" (Suíte francesa), de Irène Némirovsky, que obteve o prêmio da tradução da French-American Foundation (Fundação Franco-Americana) em 2006 - eu sou membro do júri -, figura há muitas semanas na lista dos best-sellers do "The New York Times".

Será que alguém percebeu que três dos principais eventos musicais deste outono em Nova York foram protagonizados por criadores franceses, começando com Pierre Boulez, que substituiu Claudio Abbado na direção da Orquestra do Festival de Lucerna (Suíça) para conduzir a Terceira Sinfonia de Mahler no Carnegie Hall; seguido pelo pianista Pierre-Laurent Aimard, que interpretou Haydn, Mozart e Beethoven com a Orquestra de Câmara Mahler; e terminando com Natalie Dessay, em sua estréia no Metropolitan Opera, com a sua interpretação em "Lucia di Lammermoor", de Donizetti?

Contudo, a bonita revanche obtida por Irène Némirovsky não recompensa a literatura viva, enquanto Boulez há muito deixou de ser um jovem rapaz. Por isso, seria uma insensatez ignorar o veredicto dos nossos amigos norte-americanos a respeito da pane da cultura francesa. Considerados a partir do outro lado do Atlântico, depois do existencialismo e do estruturalismo, depois de Malraux, Sartre e Camus, ou Barthes, Foucault e Derrida, os artigos publicados em Paris não mais inspiram a vanguarda intelectual. Eu mesmo estou lendo os mais recentes livros de Philip Roth, Pynchon ou DeLillo, que suscitam em mim um interesse muito maior do que qualquer auto-ficção recém-produzida no bairro de Saint-Germain-Des-Près, qualquer brincadeira minimalista, ou ditado pós-naturalista produzidos em nossa capital.

Há três anos, nós atribuímos o prêmio da French-American Foundation à tradutora de "Silbermann", de Jacques de Lacretelle, um romance curto, porém intenso de 1922 a respeito da descoberta do anti-semitismo por um colegial. A escolha não foi ditada pela falta de outras traduções bem cuidadas, e sim pela inexistência, em meio às traduções submetidas ao júri, de obras contemporâneas substanciais.

Ora, o dilema vem se repetindo praticamente todo ano. Segundo Douglas Kennedy, citado pela "Time", enquanto "a ficção americana se preocupa com a condição americana, os romancistas franceses fazem coisas interessantes, mas o que eles não fazem, é abordar o que acontece na França".

Uma vez que as regras do jornalismo americano exigem sempre "valorizar um ponto de vista positivo", o editor europeu da "Time" ainda assim nos reconforta, nos devolvendo algumas boas razões para ter esperança, na conclusão da sua matéria de capa. Afinal, não devemos nos esquecer de que nós realizamos, de vez em quando, alguns bons filmes, como os mais recentes de Luc Besson, além de "O Albergue Espanhol" ou "Amélie Poulain".

Acontece que eu pude assistir a todos eles (eles fazem parte daquela categoria de filmes aos quais a Air France expõe os sujeitos presos em seus aviões), mas eles não me fornecem razões particulares para ter esperança. De uma maneira mais séria, houve um período inicial durante o qual nos acertamos as nossas contas com o colonialismo (mesmo se o nosso demônio nacional nos incentivou muito recentemente a vangloriar as suas benfeitorias, com a lei de 23 de fevereiro de 2005, que seria anulada posteriormente). Uma vez que esta fase foi considerada como encerrada, a França tornou-se então "um bazar multi-étnico de arte, de música e de escrita, das periferias e dos recantos mais disparatados do mundo não-branco", o que faz dela "um paraíso para os apreciadores das culturas estrangeiras".

Portanto, a cultura francesa precisa parar de choramingar sobre a sua decadência para começar a procurar a sua inspiração nas suas margens; além disso, ela também precisa se abrir sem restrições para a globalização. Tais são as recomendações da "Time". Basta que adotemos a receita multicultural e nós estaremos salvos. Ainda assim, nós precisamos ter um cuidado redobrado. Como metrópole pós-moderna repleta de diásporas, como capital mundial do século 21, Paris nunca conseguirá competir com Nova York, nem no plano cultural, nem no terreno das atividades da Bolsa, nem naquele das salas de leilão.

Será que a luz no fim do túnel do declínio passa pela reforma completa da formação escolar; pela reabilitação da leitura como uma atividade na moda; pelo ajuste das discrepâncias entre a literatura e o mundo; pela introdução de um ensino artístico no segundo grau; pela concorrência das universidades, ou ainda pela liberalização das questões culturais, conforme prescrevem o presidente da República e seus ministros da educação nacional, do ensino superior e da cultura? É possível. Mas, o que nós precisamos fazer, sobretudo, é apostar, para desmentir todos os Perry Anderson e os Don Morrison da vida, que o romance da França contemporânea está sendo impresso neste exato momento.

*Antoine Compagnon é professor de literatura francesa no Collège de France.

Tradução: Jean-Yves de Neufville

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TRECHOS DA TIME
O artigo da revista "Time" tem trechos de pura ironia ao descrever o cenário atual da cultura na França.

A retratar o cinema do país, o texto destaca que a indústria francesa, que era a maior do mundo há um século, não conseguiu mais voltar a ter a influência dos anos 60, quando diretores como François Truffaut e Jean-Luc Godard reescreveram as regras da sétima arte.

"O único filme francês a ter algum sucesso nos Estados Unidos este ano foi a animação "Ratatouille" - "oops, ela foi feita na americana Pixar".

Um entrevistado ajuda a corroborar a ironia do artigo, também ao falar de cinema.

"O típico filme francês dos anos 80 e 90 tinha um bando de pessoas sentadas comendo e discordando umas das outras", diz o escritor Marc Levy.

"Uma hora e meia depois, elas ainda estão sentadas comendo; algumas estão em acordo e outras ainda estão em desacordo", completa.

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MAIS IRONIA
Ao tratar da música popular francesa, o artigo também usa de ironia. "Cantores e cantoras como Charles Trenet, Charles Aznavour e Edith Piaf eram ouvidos no mundo todo. Hoje, americanos e britânicos dominam a cena pop. (...) Poucos artistas [franceses] são famosos fora do país. Teste: diga o nome de um pop star francês que não seja Johnny Hallyday"

O texto justifica a discussão da suposta decadência da cultura francesa da seguinte forma: "Seria apenas outra extravagância - como a baixa taxa de natalidade na Itália ou o apego da Rússia pela vodka - se a França não fosse a França. Trata-se de um país no qual promover a influência cultural tem sido uma política nacional há séculos, e filósofos controversos e museus pomposos são símbolos de orgulho e patriotismo".
Reacções:

2 comentários:

Alex disse...

Um pequeno contributo para este debate (Debate?) pode ser encontrado no Editorial da Revista Beaux Arts Magazine (N.º 283/Janeiro 2008), assinado por Fabrice Bousteau (Director e Chefe de Redacção), que diz o seguinte:
1)É FALSO, que não haja hoje artistas franceses reconhecidos internacionalmente (e dá exemplos);
2)É VERDADE que diminuiram os títulos franceses traduzidos no estrangeiro, que os artistas Gauleses se exportam cada vez menos, e a sua cotação no mercado internacional é menor que a dos seus colegas Alemães ou Ingleses;
3)É FALSO E INCORRECTO que este estado de coisas se deve ao proteccionismo frances (através da conhecida política de Jack Lang da "exception culturelle"), bem como das ajudas públicas à criação, que impede os artistas de procurarem o seu espaço no mercado internacional da arte;
4)É FALSO E INCORRECTO pensar-se que a solução para estes "males" está em por-se termo à excepção cultural, em favor de uma política cultural liberal como a que defende Sarkozy.
Leiam o resto!
www.beauxartsmagazine.com

hiena disse...

Hello Djinho,vai um comentariozinho em jeito de post,
como diria o outro elementar meu caro ...
O que ta passà ness momento não so com a cultura ma ke sociedade francesa, na geral tirando algumas excepções, ta cum certo americanização dos espritos no bom e no mau sentido, proliferação de consumo,liberalização desenfreada entre outras coisas... resumindo a lei de mais forte, e mais forte é quel ke têm mais $$$$...por exemplo na musica controle total de Majors, espaço reduzido pa indêpendentes, e nos tude sabe que nem sempre o que ta vende mais é medjor, fast music ( moda fast food, uvi btà fora)...pessoas qre resultod moda ta dzid li ...chiffres d'affaires ...mas o que ta valé ainda é que têm espaços na "mercado", gente que ta afasta um czinha dess consumismo, dess NiKe-ização de frança...mas bom acho que é alucinante, de cinco anos até dia de hoje,nota que cozas ti ta muda( e ka é pa medjor) e é triste sabé que não foi impressão minha...enfim resta-nos moda ta dze Kizô ba ri gatchode... pa ka tchora em pupblico