terça-feira, dezembro 04, 2007

A poesia de José Luis Tavares!

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As irrevogáveis trevas

1.
Alguns ligeiros dias virão
o engano na voz dos homens
o bafo sombrio dos anunciados astros
semeando o anoitecer
nos acerados campos de setembro

homem despido de razões
a quem nem a subornável malícia
dos deuses consente o duvidoso consolo
de um maio sangrando às mãos da geada

até ao fim serás pequenina árvore
aí onde se desvanece o irrestrito pulsar
das manadas
como um vento que já não soubesse
por que montes acolher-se
quando absortos sinos anunciam
o amotinado repouso dos martelos

alguns ligeiros dias virão
às moradas onde o degredo é compassivo
e reverdece a caudalosa voz das antigas fúrias
razão desta vã arte
florescendo nos vastos campos da metrópole

vaticinado sucesso dos que se extraviaram
pelo pez dos séculos
e porfiam que o infindável garrote
da intempérie
é a inocente visitação do deus

uma morada só acharás
em fundo precipício
aí onde gratos emboloram
ossos e meteoros


2.
Como som para sempre extinto,
percute-te o sono a anfíbia música
da idade — desenho de sombras sob um
céu irreal onde o convulsivo eco
prediz o harmatão, seu coro de aflição.

Hás-de saber, no entanto,
que pela tarde destas mãos
espigam tributos matizados,
simples matéria de assombro
que a nora dos versos
polvilha de épicas fulgurações.

Real é dizer — anda o mar aqui
incrustado às minhas veias e as palavras
migram como aves que um aguarelista
pintasse à calota de um céu revolto.

Ao vê-las, no sépia disfarçado
em que os séculos uivam, juro
que uma rémora friável me infiltra
o coração que antes aqueci à pedra
onde tua boca, tuas coxas arrematei
num lance que hoje me escorra a orfandade.

Porém, nem sempre a sageza dos anos
nos ensina palavras com que suster o pranto,
porque o som que se extingue
no escuro da boca
é inumana infiel memória duma outra vida
tão para sempre ida

— vagamente, um piério rumor te rediz
do mundo a inconclusa trama; agora
resta-te apenas a litania indecisa
dos corpos caminho do engano,
mas nenhuma queixa, nenhum lamento,
que sempre foi o naufrágio ciência dos audazes.


3.
Quem te disse adeus quando a manhã
se incendiou para o lado das searas?
Mar ao fundo, pobre horizonte de turista,
agora que a borrasca interdita
o polimento da alma nas escadarias do passado

— fica o hálito, um rumor de véspera,
que não chega para acender no coração
o clarão da culpa, pois onde o látego
é consorte e o desterrado sonha
uma pátria improvável, não chegam
dos deuses o juízo e o preceito.

Quem pode, caminha até ao largo
onde o mundo arde em penas virtuais.
Mas tu não precisas de razões
para saber que nenhum cromado
polimento ilude a tua salitrada vocação
para a queda, desígnio que ombreia
com o tremendo rasgão do vento
desacoitando os óxidos embutidos à nascença.

Mesmo se tudo é cinza e passagem,
a ti, negro lázaro, que para uma segunda
morte hás-de nascer, oferto estes frutos
do fraco engenho, mudável reflexo
da vã alegria, fogo que ardesse
do princípio ao fim do mundo.




Da estrela à graça no eléctrico 28

Pelo findar do inverno ia eu nesse eléctrico,
por entre o marulho dos freios suaves turistas,
peregrino pedalando o diurno rosto da cidade,
não vi molero nem ofelinha — só o mulherio
esvoaçante da estrela ao bairro alto,
passos e ruas tão para sempre perdidos
ao vagar de março lustrando os poiais.

Depois, seguia ronceiro, modelo de dolência,
por essa graça súbita e distante,
por estreitas ruas que guardam o azul
temporão das manhãs de junho e o grave
semblante de quem, face ao rio, se despede
da breve primavera dos trabalhos.

Nuvens, telhados, quisera a vista estar
tão próxima desta intacta geometria, deste
tão consentido murmúrio sobre as graves
cabeças dos homens, projecto de aliança
que o vento estende sobre a secreta morada
dos mortos.

Desliza pelos dias noites de inverno,
feito nau de um distante passado,
navio do nosso futuro.
Vai sonâmbulo e vai subindo, da estrela
ao bairro alto, por entre choupos castelos
moiramas; vai de amarelo e ferrugem,
inquebrada seta pelo dealbar do dia,
caminho da graça, derradeira morada.




O rio quando antilira

O rio explode. Quando as mãos
dos anjos vêm varrer a névoa.
Ungido primeiro da tristeza,
escurece-lhe a voz
nas locas onde canta o pez.

Escuto-lhe os decibéis da ira
quando por uma tarde navegável
solta seu manancial de gritos:
já não é essa mansidão que ronronam
os líricos, mas um aguilhão
saltando às têmporas.

Mar e margem amparam o fragor
que leva o desalinho às vísceras.
Na máquina do poema
é lenta a combustão que devolve
o tejo ao afago que tantas metáforas
sussurrou aos zelosos funcionários da musa.

Não há, porém, métrica que cinja
a voz de um rio quando suspira nas entranhas
avivando um passado que é cisco na memória.


JOSÉ LUIS TAVARES é cabo-verdeano, nascido na ilha de Santiago. Seu primeiro livro, Paraíso Apagado por um Trovão, recebeu o Prêmio Mário António de Poesia 2004, atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian. Em 2005, seu segundo livro Agreste Matéria Mundo foi contemplado com o Prêmio Jorge Barbosa. Atualmente trabalha na tradução de poemas de Fernando Pessoa e Camões para o cabo-verdeano e reside em Portugal, onde estudou Literatura e Filosofia.


fonte: http://www.confrariadovento.com/revista/numero17/index.htm
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