Nkrê un Son más Son...

sexta-feira, novembro 16, 2007

Mário Lúcio - Novu CD


Badyo

Este é o nome por que é conhecido hoje o habitante de Santiago, a primeira ilha a ser habitada no Arquipélago de Cabo Verde. Mas, Vadio era todo o negro que recusava a condição de escravo; e, livre, não reconhecia o controlo das instituições sociais dominantes. Ele é o Mandinga, o Mandjaco, o Pepel, o Bantu, o Congo, o Fula, o Yoruba, o Wolof vindos de Africa como escravos e que, entre outras plantações, semearam o gérmen dos nossos ritmos: Batuko, Tabanka, Funaná, Coladera, Colá, Morna, etc. Badyo é o ancestral do Homo Criolo. Não só nos trouxe ao mundo, como também ao mundo nos levou: para América do Norte, Antilhas, América Central, Brasil, Argentina, Europa, espalhando e assimilando novos ritmos além-mar, toques e tiques que um dia voltariam em instrumentos como o Bandonéon, o Cavaquinho, a Guitarra, o Piano, a Harmónica. Badyo é o homem da rota dos escravos e a sua música, a primeira música mestiça do Planeta, a música síntese do maior encontro de culturas da história. É esta mestiçagem universal que me seduz, que eu busco e proponho na reminiscência dos sons que vieram, dos que foram, e dos que regressaram. Pois, foi aqui em Santiago de Cabo Verde que as músicas dos povos e das etnias africanas (que nunca antes tocaram juntas) viraram a música africana que anunciou a música americana que tocou a música europeia que conhecerá a música do mundo que é a música de Cabo Verde, que é mais antiga do que se pensa e mais moderna do que parece.

Mário Lúcio
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Texto de MIA COUTO

O que faz Cabo verde surgir como um centro de produção de música de reconhecida qualidade? Para uns a resposta é simples: trata-se de uma ilha e as ilhas, todas elas, são espaços de criatividade musical. Como se a música fosse uma ponte para vencer a insularidade, um apelo contra a solidão secular, uma reza para vencer distâncias e esquecimentos.
Para outros a resposta não está na geografia mas na alma mestiça, na aptidão histórica dos territórios insulares para receberem e misturarem influências. A existência do ilhéu está sentada na praia, vendo quem chega e quem parte, repartida entre a raiz eterna e a permanente despedida.
Quem está condenado a rezar, tem o canto por destino: essa seria uma outra tentativa de explicação dessa aptidão musical de uma das mais jovens nações africanas.
Não creio que estas coisas necessitem de explicação. Hoje, a música confere visibilidade a um país africano. Ter a arte como rosto, num continente que apenas é notícia pela desgraça, é uma condição rara e privilegiada.
Mas este privilégio tem um senão. O mesmo sistema que ajudou a projectar Cabo verde no mundo pode acabar por diluir aquilo que é profundamente original e diverso na música caboverdiana. Noutras palavras, o sucesso internacional da música de Cabo Verde é hoje o seu maior obstáculo. O desafio é simples e perverso: espera-se que essa arte seja fiel a si mesma e facilmente reconhecível mas é essa mesma simplificação que acabará por a derrotar e banalizar. Espera-se, assim, que a música caboverdiana se supere, se coloque em causa e invente, em si mesma, outras caboverdianidades.
Mario Lucio sabe deste repto e escolheu, desde há muito, acender outros caminhos, dar sonoridade a outras tradições que, sendo verdadeiras, são assumidamente reinventadas. O seu percurso com o grupo Simentera confirma essa preocupação de permanente renovação e ousadia. Neste álbum ele fez da reinvenção da tradição uma arma que impede que o património musical de Cabo verde seja folclorizado como “música do mundo” ou arrisque a ser moda passageira ou objecto de valor etnográfico.
Eis um outro Cabo verde, um outro Mario Lucio que não é apenas um filho da ilha. Eis um disco que se espera e que surpreende e que nos faz a nós sermos ilhéus e barcos vencendo o mar.

Mia Couto
(escritor moçambicano)
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Ficha Técnica :
Todas as letras e músicas são originais de Mario Lucio.
Arranjos e Concepção: Mario Lucio
Músicos: Mário Lúcio: Vozes, Guitarras, Baixo, Cavaquinho, Laúde, Viola 10 cordas, Harmónica, Cimboa, percussão, acordeão diatónico.
Stéphane Perruchet:: Percussão:
Chico Serra: Piano
Duka: Piano
Lela Violão: Violão
Mariza Mercadet (Argentina): Bandonéon
Thierry Fanfant (Guadalupe): Baixo e contrabaixo.
Aly Keita (Costa de Marfim/Mali): Balafon
Houss: Percussão e bateria:
Jorge “Pimpa” Martins: Bateria
Zé di Tchutcha: Gaita
Xinha: Ferro
Perry: Percussão
Grupo Batucaderas de Monteagarro
Grupo Pra Sambá
Grupo Shukayaya

Gravado no Estúdio “Nas Nuvens”, Achada Mato, Praia, Cabo Verde, em Março 2007
Engº Som: Stéphane Caisson

2 comentários:

Sams disse...

Djinho,

. Gostei da forma de apresentação do CD no teu post. Com direito a introdução, prólogo e FICHA TÉCNICA.

. Adorei a promoção da nossa musica pelo Mario Lúcio. "...a música de Cabo Verde, que é mais antiga do que se pensa e mais moderna do que parece"

. Amei o Texto de Mia Couto. "Quem está condenado a rezar, tem o canto por destino..."


Agora só falta ouvir o disco


Valeu


Cptos

licinha.masca@gmail.com disse...

É...
Adorei... o disco e tanta coisa mais ... da multiculturalidade...à especificidade...

Espero que os "sábios" leiam sobtretudo este blog ... espero também que os "avisos" do Mia Couto sejam escutados por aqueles que "decidem" ... e que nos assumamos melhor na nossa multiculturalidade e saibamos manter a diferença... por muito tempo e pela originalidade...
Força Mário, outrora acreditaste mais nos teus amigos ... mas olha perdoar é mesmo dos humanos...
Um abraço Djinho, força com este teu tão belo e despretensioso "projecto"...
Licinha