Eco a "Santiagu di Meu"!

9:47 da manhã Angelo Barbosa 1 Comments


Imagino quantas viagens serão necessárias para se falar de Santiago. Quantas viagens nesse interior de se ser caboverdiano. Santiago é ilha, mas ilha continente, ilha mãe, ilha âncora, ilha santa por ser das àguas. Viajar pela ilha de santiagu é como percorer as rugas de uma pele já envelhecida, não pelo tempo mas pela memória.
Como quem procura reencontrar-se com as esquinas do passado, percorro semanalmente a estrada que liga cidade da Praia a Assomada, insisto em refazer, em redesenhar a mesma estrada que outros procuram diariamente como canal de fuga, de destino, de evasão, de exorcisação dessa natureza entranhada de se ser badiu de for a.
Como um velho saudoso, reclamo a cada metro da nova estrada alcatroada os odores, as imagens, a natureza que se perdeu em tão pouco tempo. Da velha estrada somente restam as montanhas como testemunhas. As linhas rectas pintadas no alcatrão apagaram os restos do tempo lento em que as viagens se faziam por obrigação da necessidade. Praia, cidade capital, com sua praça grande e sua fonte, seus palácios e consultórios, Praia que tem tanto mar, barcos enormes ancorados no seu porto, gente agitada em apressadas correrias. Praia e sua miúdas mais bonitas e atrevidas que todas as demais, Praia e suas gentes com estranhas manias de grandeza, eu não queria Praia para mim. Praia esse sitio fascinate, onde o poder e as grandezas se escondem em edificios e grande automóveis simbolos da nossa modernidade. Praia, no meu imaginário de criança era o estrangeiro, essa lugar onde não se planta milho, nem feijão, onde nenhuma velha vende cancan ou ciré. Praia é bonita, mas eu, eu tenho sempre que voltar para o interior, para o planalto central, de onde se vê com clareza o destino badiu espelhado no monte Pico de Antónia.

No meu olhar de criança as fronteiras do mundo começavam no limite dos contornos do Monte Pico de Antónia. Quantas vezes, sentado nas exactas medidas do Pilon di nha Rainha vi o mundo inteiro: Assomada lá em baixo, a igreja pintada a verde e branco, o Pinheiro da praça Central, o vale de Fonte Lima ao fundo e claro o Liceu, nosso orgulho e esperança. Nesse tempo de inocência, em que uma viajem a Praia somente se justificava por motivo de visita ao médico dos olhos, o liceu de Assomada, a mim me perecia um monumento sagrado, um templo onde só sábios poderiam habitar.

Repito-me eu sei, mas para mim é sempre urgente entrar numa hiace e percorrer o tempo exacto até Assomada, chegar a São Domingos, passar por Orgãos, Saõ jorge, Picos, conter a respiração, Cruz di Picos e ver Assomada lá no alto. Cinzenta, estranha, triste, fria, mas Assomada, a cidade do planalto Central.

Estranho, sou um ilheu plantado longe do mar e das erosões das ondas. Sou um ilheu, mas naci num planalto. Toda a minha infancia foi povoada por um mar distante, onde viviam estranhas criaturas, de onde aquelas mulheres do mercado da vila traziam os peixes e o pregão: “es pexe frescu, es pexe frescu”. O mercado de Assomada trazia para mim o mar e todo o seu mistério. Ver a colecção de peixes e de cores naquelas criaturas trazidas do mar imenso, foi sempre uma revelação. Como poderia o mar ser tão misterioso, pensava eu. Sou um ilhéu, mas nasci num cantinho onde não se vê o mar. Talvés por isso, gosto mais do mercado nos dias em que é invadida pelo cheiro a pote, binde, colarau vermelho, pimenta, malagueta, a tabaco e terra. Quando é Quarta feira ou Sabado e é dia de feira nha Santa Catarina.

Cada regresso à minha Assomada é um tempo de nostalgias, momentos em que me apercebo que no meu tempo tudo passa demasiado depressa. Ainda ontem percorria as ruas da vila, à procura de tampas de cervejas e refrigerantes para fazer a minha equipa de tampinhas para o campeonato no black street, hoje a vila já é cidade e a igreja perdeu suas cores branco e verde para ganhar finos mozaicos sem cor nem vida, o velho edificio da Camara Municipal com o seu chão em madeira e velhas janelas cinzentas hoje é um amplo palácio onde estreitos corredores ignoram os mistérios do tempo.

Ma s o tempo não pensa e passa sem se dar conta do como muda o olhar. Talvés o meu. Mas o que nunca muda é o encanto e o fascínio de cada viajem ao interior da minha ilha, de Santiago. Pela janela da hiace imagens, mensagens, hinos de imponência e sedução, montanhas e vales transitam como paisagens de estranhos quadros realistas que nunca se deixam fixar. Santiago, esse poema de montanhas e vales.

Fonte: alamarginal.blogspot.com
Texto de Abraão Vicente.

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1 comments:

magui.salomão@netcabo.pt disse...

ABRÃO, VOC~E É UM JOVEM EM QUE UMA VELHA COMO EU REPAREI ESTE ANO.
GOSTEI DESTA EVOCAÇÃO DO SANTIAGU E DE SATA CATARINA QUE CIONHECI NO TEMPO DA CAIZA ABERTA DO TATÁ MARTINS, DOS ACIDENTES E ANTES DOS IACES.
GSOTO MUITO DA GENTE DO INTERIOS DE SANTIAGU. OBRIGADU
MMM