segunda-feira, maio 07, 2007

Ala Marginal!

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Abraão Vicente: em Asemana
07-05-07

“Desculpem a bazófia de dizer que ainda me lembro de certas coisas (risos)”, foi assim que Arnaldo França na sua forma de ser (nossa) memória viva arrancou a todos os presentes um largo sorriso. Pois, desculpem a bazófia de escrever as linhas com que agora escrevo para vos contar algo histórico. Sim, aconteceu o que por intuição ou atrevimento escrevia certo dia num texto publicado no "asemanaonline".


Dizia eu: No “ano em que alguns dos aclamados claridosos festejam o centenário, tenho esperança que os rumores se confirmem e caiam por terra alguns mitos erguidos à sua volta.”. Nada mais verdadeiro, apesar dos carnavais que se montaram na altura em reacção à minha afirmação. Afinal nada como o tempo para tratar das razões de cada qual.
Podia contar esta história ao bom estilo claridoso, com todos os rigores de pormenores dos dois dias de trabalhos na Biblioteca Nacional, mas não, recuso-me a aldabrar, a boicotar o trabalho de muitos que, por dever profissional, estarão neste exacto momento a cumprir essa nobre tarefa. Assim tenho a liberdade de subjectivar, de ser malandro e escrevinhar estas linhas desde esta ala marginal que são os meus sentidos.


O Simpósio (nada assombrado, diga-se rapidamente e de passagem) sobre o 1º Centenário do Nascimento da Geração Claridade teve a mágica de humanizar esses homens de cultura, de individualizá-los, de torná-los seres mais próximos dos demais do seu tempo e dos do meu. Foi a oportunidade de, ao lado da famosa fotografia de família, serem colocadas molduras com fotografias de cada um como personalidades únicas. Por tudo isso, acredito que hoje mais do que nunca Cabo Verde ama Jorge Barbosa, a Baltazar Lopes, a Manuel Lopes, ao repescado João Lopes, a António Aurélio Gonçalves, a B.Leza e claro às personagens que representaram verdadeiros resgates antropológicos do simpósio: Pedro Corsino de Azevedo e Jaime de Figueiredo.


Amamos mais esses cabo-verdianos porque imperfeitos, porque desmistificados, porque reais, porque a nós Homens se nos ensinou a amar mais a outros Homens de carne e osso. Aos Deuses reservamos a fé (um misto de medo e angustia), mas como é publico e sabido por esta paróquia o tempo é de crises.
Para ser concreto nos dias anteriores aos do Simpósio andei um pouco inquieto pela expectativa de tantos encontros que se perspectivam à partida e pela quantidade/qualidade de informações que teria de estar preparado para receber.


Assim resolvi aceitar o repto de João Neves, Director do Centro Cultural Português e começar a semana (terça feira) num exercício de reflexão sobre o mais que contemporâneo desafio de compreender as dinâmicas que levaram à gravidez/parto do que hoje é assumidamente uma certa identidade mestiça de Lisboa, isto é, dos grandes centros urbanos mundiais, do chamado espaço lusófano.


Pensar sobre a construção identitária e as tendências de identificação cultural da segunda e terceira geração de emigrantes nesses espaços de limites indefinidos que constituem a própria modernidade. O fio conductor foi dado pela projecção do documental independente “Lusofonia, a (R)evolução”. Música como língua comum. Um excelente documental, do género de trabalhos que podem dar uma ajuda para que Lusofonia deixe de soar a nome de algum spray ambientador. Dois dias depois, na quinta feira, ainda no CCP o primeiro cheiro de Nho Baltas a anunciar dias mais intensos, através da peça de teatro “A Caderneta” baseada na obra homónima de Baltazar Lopes. Encenação do incansável João Branco com Mirita Verissimo a partir a loiça toda numa excelente actuação.


A direcção musical esteve a cargo de Nuno Tavares jovem de fino ouvido. A peça “Mulheres na Laginha” viria a encerrar, no domingo, com chave de ouro o fim-de-semana na capital.
Sexta-feira. Fui ao simpósio porque, como escreveu Baltazar, tambéu eu sou um “caçador de heranças/e queria confessar a minha gratidão” pela riqueza que os rapazes da claridade me deixaram por herança, agradecer pela janela aberta ao mundo com vista para minha terra, queria sobretudo participar nesta conversa com a história onde se prestou e se acertou contas com o tempo. Era já momento de saber quem deixou o que de legado a quem, era já tempo de sermos Claridosos(no sentido de lançar luz sobre) ao pensar na Claridade.


Já na sala de conferências da Biblioteca Nacional desejei um desejo de Jorge Barbosa “era para eu ser panfletário” e poder combater certos discursos introdutórios, abolir a formalidade entre os Doutores e libertar as mentes para um livre exercicio de pensamento, denunciaria a mais popular expressão do Simpósio: ditadura do tempo, e claro, como um bom panfletário daria corpo ao tal manisfesto da ala marginal proposta por Filinto Elísio, que teve adesão, mas que por etiqueta morreu ainda embrião. Esse sim seria um momento hilariante.


Mas falemos do momento histórico que se viveu este fim-de-semana na capital. Tocaram-me de forma especial as comunicações de Pires Laranjeira sobre o “Stock negro na claridade” pelas questões levantadas apartir da análise da questão negra nos claridosos, Gabriel Fernandes que recusou o titulo de especialista da Claridade trouxe mais luz sobre as leituras da obra claridosa e a coisa identitária. Claro está, Arnaldo França e a sua arma letal: a memória, emprestou ao simpósio um dos momentos altos na apresentação do seu texto: “A personagem feminina na obra de António Aurélio Gonçalves”.


Maldita ditadura do tempo. Mas se me permitem, o momento Top pela lucidez, pela força da natureza que representa o homem que lhe deu corpo aconteceu quando Mário Fonseca se questionou. Foi o momento em que se materializou um momento de verdadeira representação do espirito intelectual. O ser que se questiona e nenhuma resposta lhe satisfaz, a procura como resposta a todas as dúvidas. Mário Fonseca, o poeta, apresentou o texto “Pedro Corsino de Azevedo Percursor e Enigma”. No texto resgatou e reconstituiu a memória de Corsino de Azevedo. Ao terminar o texto pediu licença e entregou-se a uma espantosa reflexão sobre a marginalidade e a intelectualidade.


Para ilustrar a marginalidade do outor que lhe coube tratar afirma a certo momento: “Eu mesmo sou um marginal!”. Da plateia vieram alguns comentários de sinalizar: “este homem[Mário Fonseca] representa em qualquer sociedade do mundo uma pedra no sapato!”, ou ainda: “... .é na margem que nasceram, que se planearam todas as grandes revoluções e todas as grandes rupturas intelectuais da história da literatura e da intelectualidade”. Nos momentos mortos do simpósio oficializou-se oficiosamente o nascimento da grupo dos marginais: Ala Marginal.

Outro momento marcante pela carga afectiva, pelo tom de leitura, pelo conteúdo e pelo testemunho pessoal que representou foi o texto apresentado por Joaquim Arena. Este conta o seu encontro com Cabo Verde, com sua ilha através do romance “Chiquinho”. Foi o testemunho da diáspora. O texto representou de certa forma a experiência de milhares de caboverdianos de segunda e terceira gerações na emigração. Como é obvio não posso deixar de recomendar a leitura do livro “A Verdade de Xindo Luz” de Joaquim Arenas. Filinto Elisio no seu jeito muito seu de parir palavras e inventar novíssimas formas de construções frasísticas ajudou o resgate de Jaime de Figueiredo, personagem que ganha a partir de agora um nova visibilidade na história da literatura e das artes caboverdianas.


Do actual enfant terrible (ninguém como ele usa a força do sistema instalado para dribá-lo), do novíssimo, mas não jovem poeta, caboverdiano José Luis Tavares e do seu texto: “O que devo ou não à Claridade”, cito um pensamento preciso: “Importou-me sempre mais a insularidade existêncial e humana que a circunscrita territorialidade, real ou imaginada, sendo a primeira praticamente mais fecunda, ainda que caboverdianamente menos considerada”.

Creio que Daniel Pereira pode ser considerado um dos mais ousados conferencistas que passou pela mesa. A razão é simplesmente esta: procedeu à desmontagem ou como ele mesmo sublinha à “desminagem”, do que classifica como pensamento redundante e tautológico: “os caboverdianos não são nem europeus, nem africanos, mas caboverdianos” (Baltazar Lopes). Acerca desta afirmação Daniel Pereira pensa o seguinte: “...ela encerra no seu bojo uma tese isolacionista, agregando maiores dificuldades ao isolamento físico intrínsico que caracteriza o factor ilhéu; ela é, igualmente excluente, já que parte da nossa identidade e autenticidade próprias para se excluir ou afastar-se das culturas de origem; parte, ainda, do príncipio falacioso, de que existe unicidade cultural em África ou na Europa, uma asserção desmentida pelos factos e pela realidade.


Aliás, para sermos sinceros e precisos, unicidade cultural é coisa que não existe, sequer em Cabo Verde,...”. Notas para reflectir. Para pensar ainda, três das muitas questões lançadas por Daniel Pereira: “A estabilidade que respiramos, a qualidade de vida que temos vindo a conseguir, só será possivel se não formos africanos?” , “O que falamos, que língua é esta que nos une e tantos atropelos tem à sua cabal existência?” e por fim “ Que doloroso passado este que nos impede de aceitar as duas forças antagónicas que em nós habitam?”. As respostas muitas delas estão no texto que Daniel Pereira apresentou no Simpósio: “Aventura e Rotina e Baltazar Lopes ou a adiada identificação africana de Cabo Verde”.


Como é óbvio o simpósio não agradou a todos, muitas “bocas” foram mandadas, pena que não no lugar certo. Como diriam os espanhois há que ter cojones para fazê-lo. Muitos ditados populares poderiam ser chamados a enfeitar este facto, cada um escolha o que mais lhe convenha. Da minha parte fica apenas uma sugestão tardia à organização: o terceiro dia também deveria ser de trabalhos, assim os conferencistas teriam mais tempo e o debate também ganharia mais espaço. Cá por mim não me importo que se inventasse um quarto dia para descanso e lazer, afinal é da praxe. Também o é parabenizar ao Ministério da Cultura pela iniciativa.


Última nota: caro senhor Primeiro Ministro ouvi com atenção o seu eloquente discurso e tomei notas. Nós da Ala Marginal inscrevemo-nos desde já para a tal bolsa da criatividade, já sabe, mal acabou de pronunciar tais palavras, muitos olhares se trocaram e logo, pela noite adentro muitas conversas/projectos se fizeram em torno dessa ideia. Não nos parta o coração com falsas promesas, somos boa gente e quase nunca pedimos demasiado. Quanto às rivalidades que falou, não se preocupe, esse tipo de troca de ideias é saudável, não usamos armas mortíferas e sabemos manter o nível.


O necessário é evitar que certos conflitos continuem latentes. Por certo me entenderá. Ah, também falou de grande ideias para a cultura, está pronto para ouvi-las? É grátis, tipo parceria público/privado. Aquele abraço.


O simpósio acabou às seis da manhã ao pé de uma praia conhecida da capital, conversa puxa conversa e dipós kriolo ka ta nega um pé di badju...


Abraão Vicente
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