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terça-feira, fevereiro 20, 2007

Tchalé Figueira - Registo!



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Tchalé Figueira: “Chegar à simplicidade é a coisa mais difícil”


17-02-07
O artista plástico Tchalé Figueira expôs recentemente no Centro Cultural Francês, na Praia, um conjunto de telas, de vários formatos, em que branco e preto se alternam, enquanto fundo e traço. A mostra, que possivelmente rumará para a Europa, revela a sua busca pela simplicidade. Nesta entrevista, o artista mindelense fala de pintura, de literatura, de bom e mau gosto. ~

Por: Gláucia Nogueira

Depois de anos a produzir telas tão coloridas, o que o fez agora optar pelo preto e branco?

Todo o artista tem essa curiosidade, ou necessidade, de descobrir novas coisas. Eu que sempre usei as cores de uma forma exuberante, senti essa necessidade de chegar a esta experiência de luz e ausência de luz, que é o preto (ausência da luz) e o branco (mistura de todas as cores).

Como um momento entre parêntesis no seu trabalho com as cores?

Sim, porque as cores para mim são a vida. Tudo aquilo que reflecte o nosso quotidiano, seja naturalmente, seja na forma em que vivemos, como uma máquina de Cola-Cola, que é vermelha, a forma de vestir, exuberante, dos cabo-verdianos, as casas. Em tudo está a cor. Mas também tenho uma necessidade quase budista de chegar à simplicidade, que é a coisa mais difícil deste mundo.

Como começou o seu interesse pela pintura?

Não sei explicar, mas talvez subconsciente ou inconscientemente, o meu irmão [o artista plástico Manuel Figueira], que é mais velho, terá sido, quiçá, a minha primeira referência.

Mas lembra de si próprio a desenhar e a pintar quando criança?

Acho que todas as crianças desenharam e pintaram na escola, obrigatoriamente. Mas como lazer ou uma forma de expressão, acho que não. Mas fui modelo do meu irmão, era uma coisa chata, tinha que ficar ali sentado... Mas a minha vocação, a minha paixão pela pintura nasce na Suíça.

Quando saiu daqui foi para estudar Belas Artes?

Não, eu emigrei para a Holanda, onde tinha um tio, simplesmente para fugir ao serviço militar - estávamos em plena guerra colonial, em 1970, eu tinha 17 anos - e para prosseguir os meus estudos, na Bélgica, pois ainda não tinha concluído o liceu. Mas acabei por ir navegar. Fui marinheiro durante dois anos. Depois disso é que fui para a Suíça, e lá conheci uma pessoa, que veio a ser a minha mulher, que foi quem me incentivou. Comecei a ver pintura e tive esse desejo - que talvez já existisse no meu subconsciente - de enveredar pela arte, de aprender. E consegui ingressar na escola de Belas Artes, que frequentei durante três anos e não cheguei a terminar, por não achar necessário. Não creio que as escolas de Belas Artes façam artistas. Fazem as pessoas aprender técnicas. Desde o momento que saí assumi-me como artista plástico.

Dá para viver da arte?

Dá sempre para viver da arte quando se acredita naquilo que se faz. Não é uma questão de dinheiro, é a perseverança, acreditar naquilo que a gente quer compartilhar com outras pessoas: um mundo mais belo que esse mundo político, absurdo, destrutivo. A arte é uma mensagem para aqueles que estão disponíveis para captá-la. Não sou salvador do mundo, mas se eu fizer alguma coisa de bom, com a minha consciência, acho que sou menos um crápula no mundo.

Mas ao longo de uma carreira já com alguns anos, a trabalhar com galerias na Europa, naturalmente que há algum retorno financeiro.

Exacto.

E onde vende mais, em Cabo Verde ou na Europa?

Eu vendo mais na Europa. Mas há pessoas que vendem bem em Cabo Verde, até porque o conceito da arte em Cabo Verde está muito baralhado, no sentido em que não tendo crítica de arte, de música, muitas vezes pode-se cair no ridículo. A pintura que temos hoje, que as pessoas aqui consideram pintura, é uma coisa muito folclórica - aquilo que os alemães chamaram de kitsch -, são mais postais de um folclorismo de Cabo Verde do que uma pintura mais individualista mas que também seja cabo-verdiana, embora universal. O mau gosto ainda prevalece na nossa sociedade. Não existem museus de arte. Agora começa a haver um programa [do também artista plástico Abraão Vicente, que posteriormente à entrevista soube-se que seria extinto] que começa a dar uns passos para as pessoas compreenderem o que é pintura, o que é arte, a sua evolução.

O que pensa que deveria existir em Cabo Verde para as artes plásticas darem um salto qualitativo?

Em primeiro lugar, acho que devia existir um museu. Nesses 30 anos, já dava tempo de termos um museu de arte contemporânea. Já existem artistas cabo-verdianos com uma obra feita. Eu sei que o país tem um espólio de artistas que passaram por aqui e deixaram obras suas. Podia ser o começo de um museu de arte. E também precisava haver um curador de arte, que possa fazer a diferença entre o joio e o trigo.
E o ensino de arte?
A escola do Leão Lopes está a formar professores que, no futuro, vão dar aos alunos uma noção da evolução, da história da arte. É uma iniciativa fabulosa. Mas era necessário que cada ilha tivesse “o seu” Leão Lopes. Enfim, pessoas que possam dar uma contribuição nessa área.

Falando de uma área que não é exactamente a sua, mas é afim: o artesanato, que não consegue competir com o que vem de outros países. Os artesãos dominam a técnica, mas o produto final nem sempre agrada. O que pensa disso?

Sim, por vezes é tosco. Falta uma noção de estética. Não basta ter habilidade. O artesão é normalmente alguém com habilidade mas não tem, entre aspas, a parte intelectual.
Mas veicula uma estética popular, que muitas vezes é bonita, tem qualidade.
Com certeza. O mais básico, o mais autêntico, pode ser lindíssimo. O problema é quando se tentar imitar e aí é que entra o mau gosto. Temos em Cabo Verde essa tendência. Talvez devesse começar já na instrução básica a dar uma noção de estética. Nem todos serão artistas plásticos, mas poderíamos ter artesãos de qualidade, com noção de estética, sabendo aquilo que é cabo-verdiano, no sentido de dar valor acrescentado àquilo que é nosso.

Conte-nos um pouco da sua fase como marinheiro.

Saí de Cabo Verde para não me meter numa guerra estúpida. Não tínhamos opção. Se tivesse, tinha ido para a Guiné-Bissau, ou para o lado do PAIGC, mas quando fizesse 18 anos tinha é que ir para a tropa portuguesa. Meu pai, como homem lúcido que foi, mandou-me para a Holanda. Então, eu não quis estudar e entrei nessa experiência, a qual de certa forma está descrita no meu livro “Ptolomeu e a sua Viagem de Circum-navegação”. Muito desse romance é autobiográfico mas, como disse Jorge Luís Borges, toda a obra é autobiográfica.

O que você fazia no navio?

Era copeiro, lavava copos, servia. Coisas desse tipo, eu era um miúdo de 17 anos, inocente, com aquela tendência da evasão total de que fala a nossa poesia. Não tinha nenhuma experiência de nada. Cabo Verde naquela época era uma coisa super atrasada, se Portugal era atrasado, imagina Cabo Verde.

Mas gostou de estar no mar?

Gostei, e até hoje quando venho à Praia venho de barco. Tenho ainda essa noção da viagem de barco como um tempo de preparação para chegar a outro sítio, gradualmente. Uma forma de meditação. A minha vida foi sempre uma viagem.

E a escrita, como começa?

Em Cabo Verde. Eu tinha saído em 1970 e regressei em 1985. Eu nunca quis escrever na Suíça; primeiro, eu perdi o domínio do português, mas regressando a Cabo Verde, com o tempo fui reaprendendo, então comecei a rabiscar uns poemas. E mais uma vez tive o incentivo de uma mulher - viva as mulheres! - até chegar a esse ponto, de publicar os meus trabalhos. Recentemente saiu “O Solitário”, além de ter publicado três livros de poemas [“Todos os Naufrágios do Mundo”, “Onde os Sentimentos se Encontram” e “O Azul e a Luz”]. Não me considero escritor e nem mesmo - como diz o Germano Almeida - um contador de histórias. Apenas gosto de escrever, não é uma coisa que assumo como a pintura, esta sim para mim é uma responsabilidade. São meios de expressão.

Como a música?

Sim, pois toco sempre com o Vasco Martins, mas de uma forma espontânea, sem a pretensão de ser músico. Adoro percussão e se tenho essa oportunidade de vez em quando, porque não? Em Cabo Verde a gente tem muito tempo para fazer muitas coisas. Felizmente.
Ligado que está a várias formas de arte, como vê a questão do mecenato?
Acho que pode melhorar. As pessoas que poderiam ser mecenas ainda não perceberam bem qual pode ser o feed back. Eu tenho vendido para algumas empresas, mas todas as grandes empresas, os hotéis, enfim, deveriam investir, e ter conselheiros que pudessem dar a esses mecenas a informação do que tem valor e do que não tem.

Numa crónica recente, referiu-se a um “mamarracho”. Estava a pensar em alguma obra especificamente?

Nada específico, mas estava a falar de uma coisa que acontece neste país. Estava a chamar a atenção para que não chamem alguém para fazer uma obra porque é primo de um ministro ou é conhecido pelo seu folclorismo. Acabam por expor na via pública uma coisa feia, um "mamarracho", como dizem os portugueses, mas não são os políticos que têm condições de decidir e, sim, gente competente que tem o conhecimento da estética.

Seria preciso educar o gosto dos políticos?

Ah, esses não têm jeito, o gosto deles é o poder. Conheço poucos políticos cultos. Pode até haver muitos que são inteligentes entre os nossos políticos, mas cultos não. Nem na música, nem na literatura, nem na pintura.
Há tempos, Abraão Vicente falava que seria bom se os donos de obras de arte as expusessem. Conhece esses coleccionadores de arte em Cabo Verde?
Há alguns, não sei se podemos falar em colecções, mas há pessoas que têm obras interessantes. Porque não, vez por outra, reunir isso, mostrar essas obras? Apesar de tudo, há pessoas de bom gosto - poucas, infelizmente -, que entendem do assunto. Mas são muito discretas, ficam anónimas. Mas há uma outra coisa que gostaria de chamar a atenção: houve a partir de certo momento um grande bluff, quando certos artistas, se é que se podem chamar assim, começaram a praticar preços exorbitantes e a partir daí criou-se uma situação em que alguém que fazia a sua primeira foto, o primeiro rabisco, começava já a vender caríssimo. Não estou de acordo. Primeiro tem que trabalhar, criar um mercado, mas em Cabo Verde, alguém faz uma ou duas fotos e vende por 40 ou 50 contos cada uma. Quadros por 300, 400, 500 contos.
E parece que há quem esteja disposto a pagar...
Tem gente que compra, mas se você vai ver o curriculum do artista, ele não tem expressão nenhuma num mercado mais vasto, fora daqui. É um absurdo! É aquilo que eu dizia, o kitsch, o folclorismo, isso vende, vende, vende. Eu gostaria de ver as pessoas encararem a arte não só como uma coisa decorativa, mas em função do seu valor estético. E também na literatura cabo-verdiana, que ela não seja só a seca, a fome. Estamos fartos disso!

Entrevista

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