Nkrê un Son más Son...

quinta-feira, dezembro 07, 2006

Manel Clarinete - Uma Homenagem!

Son di Santiagu pede permissão à Glaucia para utilizar o texto publicado no Paralelo 14.
Gostaria de pelo menos prestar uma homenagem a este cidadão que foi um professor de música de vários musicos.
Que a sua alma descanse em paz.

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As bandas de música (X) - Manuel Clarinete

Domingo, 17 abril 2005
Na última crónica falámos de instrumentistas para quem as bandas municipais foram um pontapé de saída para carreiras em que vieram a se destacar longe delas. Desta vez, e a concluir esta série, vamos contar a história de alguém que, desde que começou a aprender a tocar, há mais de meio século, nunca se afastou delas.

Manuel Clarinete (Manuel Correia da Silva) nasceu na Praia no último dia do ano de 1933. Foi para S. Vicente ainda não tinha quatro anos, já que o pai, polícia, foi transferido para esta ilha em 1938.
Em 1948, quando Nhô Reis decide formar uma nova banda, substituindo os músicos que queriam ganhar mais, o jovem Manuel era aprendiz numa oficina de serralharia e mecânica. Com os colegas, vai para as aulas de música após o trabalho. "Saíamos às cinco horas e íamos directamente para a casa do sr. Reis, perto da Praça Nova. Naquele tempo, era rua Infante D. Henrique. Era todos os dias, até às oito da noite", recorda.

Essa banda, com 36 elementos, segundo o músico, estreia em Abril de 1950, no dia da Páscoa - um artigo publicado por Jacinto Estrela no "Notícias de Cabo Verde" confirma-o com exactidão. O mestre dividiu a banda em três partes e escolheu três dos melhores músicos para coordená-las e, ainda que novatos, ensinar aos outros: o naipe dos instrumentos baixos (contrabaixos, barítonos, trompas) ficou com Manuel, enquanto Duca de Nhô Pitra assumia os trombones e Ildefonso ficava com os clarinetes.

Mas o jovem Manuel, que nessa época tocava requinta (um clarinete pequeno, que também lhe deu a alcunha de Manuel Requinta), começa a tocar em bailes e, por isso, aos domingos, faltava. O sr. Reis, naturalmente, não gostava. "A gente, quando faltava, tinha de ir justificar, numa espécie de tribunal, arranjava-se um escrivão, a gente ia depor, dizer o motivo da falta, etc. Então fizeram isso umas três ou quatro vezes e decidi sair", conta o músico. Isso foi em 1952.

Nessa altura, o pai, que já estava reformado desde 1948, decide voltar para Santiago. "E não me deixou ficar lá." Entretanto, Jorge Cornetim, que estava a reger a banda da Praia - e que fora professor de Manuel Clarinete na disciplina de canto coral, no liceu em S. Vicente - fica sabendo da chegada do rapaz. "No dia seguinte àquele em que cheguei ele convidou-me para ir para a banda. Cheguei no dia 10 de Julho de 1952, e já no dia 13 toquei pela primeira vez na praça. Mas o meu pai disse que eu tinha que trabalhar, ficar só a tocar não podia. Jorge Cornetim contacta uma pessoa da Câmara para me arranjar um emprego, e aí fiquei sempre lá. Nunca trabalhei noutro sítio."

Com a saída de Jorge Cornetim, que vai para S. Vicente em 1967, o contramestre Eugénio Varela assumira a direcção da banda. Certo dia, em 1971, o sargento português Joaquim Safara estava na praça a ouvir a banda. No fim da apresentação, apresentou-se ao contramestre, disse que era músico e que estava a faltar qualquer coisa à banda. "Com quem é que devo falar?", perguntou. "Indicamos para falar com alguém na Câmara, ele foi. Foi uma iniciativa dele, não tinha vindo para reger a banda." Safara fica como regente até Janeiro de 1973 e, ao partir, indica o nome de Manuel Clarinete - que era funcionário da Câmara na área da fiscalização - para ficar no seu lugar. E ele passa, assim, a ser músico a tempo inteiro.

Também na sua gestão a banda - como foi sempre habitual na história destas formações - teve os seus altos e baixos. Em 1976, é extinta. "Havia músicos muito idosos - alguns estavam a tocar desde os anos 20 -, muitos não tinham dentes, coisa que numa banda é impossível, pois os dentes é que suportam embocadura dos instrumentos de sopro e sem a sua pressão as notas não saem afinadas. Os instrumentos também eram velhos, não ajudavam nada. Então na altura o delegado do governo - Alexandre de Pina - decidiu suspender a banda até haver melhores condições", recorda o maestro.

Em 1980, Manuel Clarinete parte para Portugal, para uma formação na banda da Guarda Nacional Republicana (GNR) que deveria durar quatro anos. Contudo, ao observar o músico cabo-verdiano, o chefe da banda, capitão Amorim, pergunta-lhe onde tinha estudado. "Eu disse: em Cabo Verde. Ele perguntou: mas lá há um conservatório? Eu disse que não. Então, como é que o sr. aprendeu? Eu disse: eu estudo. Porque na banda só se aprende a tocar, não há teoria. Mas eu sempre li, tinha muita prática de instrumento, e uma coisa que ajuda muito é escrever música. Há pessoas que só lêem música mas não escrevem."
O facto é que, menos de um ano depois da sua chegada, o chefe da banda da GNR diz-lhe que não tem muito a aprender lá e que se quiser pode-se ir embora. "Então passaram-me o diploma e o capitão Amorim entregou-me dois pares de batutas. E voltei para Cabo Verde." A Câmara abre inscrições e cerca de 120 pessoas se inscrevem, raparigas inclusive (cerca de 20, mas nenhuma ficou). Em Fevereiro de 1981 inicia-se a formação da nova banda, que estreia a 19 de Maio de 1983, recorda o maestro.

Mais tarde, parte dos músicos é contratada pelas Forças Armadas para formar a banda militar, o que faz com que actualmente a Banda Municipal da Praia conte com pouco mais de 30 elementos, embora os da militar participem das actuações da municipal. Há mais de um ano, por falta de bancos no coreto da Praça Alexandre Albuquerque, a banda não toca aos domingos. Mas os ensaios mantêm-se regularmente, embora as escassas oportunidades de tocar desmotivem os músicos.

Para além de músico e chefe da banda, recorde-se que Manuel Clarinete é também compositor. A bela morna "Laura" - gravada por Mário de Melo e Arminda Sousa há mais de 30 anos, e, na década de 90, por Gardénia Benrós e Maria Alice, sem contar a gravação de Fátima Alfama, inédita até 1998 e incluída na reedição do disco de Tututa e Taninho - é um dos seus temas mais conhecidos.

"Mata Sodadi" foi gravada pelo grupo Zeca Santos; "Basculante", por Ima Costa (Fátima Alfama) e "Pega Malandro" aparece em discos 45 rpm de Maria da Luz e de Mário de Melo. "Milho Branco", por sua vez - "que toquei a primeira vez num baile de fim de ano, em 14 de Dezembro de 1955" - , foi gravada pel'Os Apolos. "Só que eles trocaram a letra e um bocadinho a música", diz o compositor. "Nossa Senhora da Graça" e "Tempo Perdido" são temas que apresentou na rádio ou outras ocasiões, mas que não sabe se foram gravados.

"O meu mal sempre foi que eu fazia a música para eu tocar, porque eu tocava todos os sábados, todos os domingos, e o reportório aqui na Praia não era muito, por isso eu criava música", explica, para justificar que, apesar da sua memória excepcional, não se possa recordar de todas as suas composições tão bem quanto se recorda das datas que marcaram os seus 55 anos de banda, 32 como chefe da da Praia.

Por Gláucia Nogueira

2 comentários:

Mito Elias disse...

Paz à alma do Sr. Manuel Clarinete. Não sei olhar a "gurita", sem me lembrar dele.

CVmente

Mito

Anónimo disse...

Que descanse em paz.

Paló & Nhela Sax