terça-feira, outubro 03, 2006

Nhu Xinhu - Poema de NZé di Sant’ y Águ

Posted by with No comments
À memória de Nhu Xinhu, tecelão e ancião de Pombal

As mãos
enrugadas
tecem a vagarosa e calada amargura
que do rosto
sulcado de velhice
em fímbrias vegetais se transmuta
para os dias utilitários
das mulheres dos cortadores de cana de açúcar
e ilumina a castanha resplandecência
do milho e de outros frutos de Pombal


Padece a alma
- escalvada
escalavrada ribeira
alagada de pétrea mágoa
e do último suspiro
das águas e da agonia do verde-
onde o rústico coração floresce
e em silêncio amadurece

Fenece a alma
e absorta assombra
o espectro do sobrado
ensombrando o basalto nú e negro
e o humilde colmo do casebre
ajaezado e circular refúgio
em funco estigmatizado
sob a penumbra das montanhas
e do finar da esperança
quando o preto-fino
do rumor irredutível do djato
e do ébano esplendor da valentia
e da pele rebelde
da já antiga altivez dos cabelos crespos da mocidade
se perdem no preto-negro
da serena e já anciã servidão
das mãos tranquilas
e do corpo sentado
sobre os restos
e as cicatrizes do poilão

Descai o rosto
réstia apenas da ribeira crucificada
no altar do riso cúpido do morgadio
e do pelourinho
da repentina violência
das cheias de Agosto
sobre a ferida
da plenitude rubra do tempo
despojado de rancor
indiferente às mãos de Nhu Xinhu
tecendo calosas a memória
da melancolia e o fulgor da acrimónia
escorrendo da sombra cerimoniosa do casebre…

Lisboa, 22 de Junho de 2003
Reacções:

0 comentários: