terça-feira, agosto 15, 2006

Existir: o desafio da cimboa

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Son di Santiagu agradece à Glaucia Nogueira pela informação e texto.
Termina hoje em Ribeirão Chiqueiro um atelier de construção de cimboa.
Nho Manu Mendi, conhecedor da Cimboa trabalha com quatro jovens aprendizes da localidade e conta com o apoio do Pascoal Fernandes (militar, músico, de S. Domingos) para passar o seu saber.
Gláucia Nogueira também participou no atelier como formanda enquanto estudante de antropologia.
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Ausente da música cabo-verdiana contemporânea, há muito tempo que se diz que a cimboa tem os dias contados. Se vier a desaparecer, o que provavelmente acontecerá se a música actual não lhe der uso, ficará o registo do seu papel enquanto elemento do património imaterial de Cabo Verde, já que um projecto de salvaguarda dessa memória está em curso.

Salvaguardar a memória colectiva à volta da cimboa é o objectivo um projecto que está no momento a ser levado a cabo pelo Instituto de Investigação e do Património Culturais (IIPC), sob a coordenação do historiador Charles Akibodé.

A iniciativa prevê a realização de ateliers de construção e restauração de cimboas, para que Manu Mendi – apontado como seu único tocador e construtor na actualidade – passe o seu saber para outras pessoas. O músico e artesão de Rubon Chiqueiro, município de S. Domingos, irá também, naturalmente, ensinar a tocar o instrumento, acompanhado de um professor de música.

“Não há dúvida de que o instrumento está em iminente via de desaparecimento em Cabo Verde e com ele toda a memória colectiva à sua volta”, escreve o coordenador do projecto no texto de apresentação do mesmo. E questiona: “Porque desapareceu pouco a pouco?”

Entre as hipóteses que Akibodé refere para o declínio da cimboa está o facto de se tratar de um instrumento de pobres, nunca aceite nos salões das classes mais altas e, por isso, facilmente suplantado pelos instrumentos de corda europeus. Também por isso, possivelmente causador de alguma vergonha aos tocadores, refere o investigador. São hipóteses para estudo.

Contudo, é de referir que a falta de prestígio perante a classe dominante e mesmo a repressão sofrida no passado por autoridades administrativas e religiosas não foram suficientes para acabar com manifestações como o batuque, a tabanca e o funaná. Pelo contrário, vão todos bem de saúde.

Outro questionamento subjacente ao trabalho sobre a cimboa é que, sendo um instrumento de corda, porque nunca era tocada a solo como em outros países africanos? Os relatos em que o instrumento aparece inserem-no sempre numa roda de batuque. É, aliás, associado a um nome fundamental do batuque e do finaçon, Nha Bibinha Cabral, que aparece o penúltimo tocador de cimboa, Nho Henrique (ver caixa).

No seu livro “Cabo Verde - Apontamentos Etnográficos” (1976), o antropólogo João Lopes Filho insere o texto “Berimbau e Cimbó - Dois Instrumentos Musicais em Vias de Desaparecimento no Arquipélago de Cabo Verde”, naquele que é um dos raros documentos a falar sobre a cimboa e que há 30 anos já apontava o instrumento como uma peça de museu.

Segundo Charles Akibodé, pretende-se que o projecto tenha abrangência nacional, pelo que as câmaras municipais são convidadas a enviar participantes para os cursos – artesãos ou músicos – bem como a colaborar com o envio das matérias-primas necessárias.

Este, aliás, é um dos problemas para que a cimboa continue a existir: Santiago, último reduto onde ainda se encontra o instrumento – considera-se que já existiu em outras ilhas – praticamente já não produz cabaças e a crina de cavalo com que se faz a corda está a ser enviada do Uruguai.

Parece ser difícil comprar este material aos proprietários de cavalos em Cabo Verde. Teve de vir do Brasil, numa oferta informal, a crina para ser utilizada numa outra iniciativa de valorização da cimboa, realizada no ano passado no Centro de Juventude de S. Domingos, quando Manu Mendi teve durante dois meses um grupo de aprendizes. Quanto à cabaça, teve de vir da ilha do Fogo.

O atelier com Manu Mendi deveria já ter sido realizado, segundo o técnico do IIPC, mas segundo as suas previsões será possivelmente ainda em Abril. Por outro lado, a equipa de investigação vai realizando entrevistas e recolhendo material documental, num trabalho de Akibodé pretende seja multidisciplinar e não confinado aos cânones académicos.


O último, o penúltimo e o futuro

Mano Mendi (Pedro Mendes Sanches Robalo) é natural de Chaminé, S. Domingos, onde nasceu em 1927. Vive em Rubon Chiqueiro. Em 1998, quando fomos entrevistá-lo, tinha o seu próprio grupo de batucadeiras, suas vizinhas, além de participar de apresentações com o grupo de batuque de Ntoni Dentri D´Oru, em cujo disco participa. O disco, editado em França pela Ocora/Rádio France em 1998, resulta de gravações para uma emissão da France Culture feita no ano anterior pela equipa de etnólogos Jean-Yves Loude/Viviane Lièvre.

Mano Mendi disse-nos na altura ter aprendido a tocar com nove anos. O seu pai tocava e construía cimboas, disse, mas não foi com ele que aprendeu, pois morreu nessa época, em 1937, tinha o filho Pedro 9 anos. Então aprendeu com quem? “Com Ernesto, que morreu em 47”. Sobre outros tocadores de cimboa, referiu, além do pai e de Ernesto, os nomes de Lelé e Joaquim Fonforon, este último só de ouvir falar, não chegou a conhecer.

Recentemente, e já no âmbito do projecto do IIPC, em entrevista aos técnicos do instituto Mano Mendi não se lembrou de nomes de outros tocadores, segundo Chalés Akibodé, o que pode se justificar com o facto de ser agora quase um octogenário. A outra entrevista foi feita há já oito anos. Por essa razão, este registo, que inclui solo de cimboa e acompanhamento do grupo de batuque, será oferecido ao IIPC para constar do projecto de salvaguarda da memória da cimboa.

Mano Mendi reclamava, em 1998, do facto de, devido à seca, não haver mais cabaças (buli), daí a necessidade de usar coco. Quanto menor a caixa de ressonância, mais alto é o som, explica, especificando que a corda é feita de fios de crina de égua: “Se for de cavalo macho tem o som mais baixo. A pele de cabra recobre a abertura feita na cabaça e a pele é presa com pequenos espetos de cana.”

Nho Henrique (Henrique Tavares), por sua vez, nasceu em 1905 e morreu no início dos anos 90. Funcionário da Câmara Municipal do Tarrafal, foi varredor de rua, só deixando esta actividade por doença, já bastante idoso. Em “Ña Bibiña Kabral - Bida y Obra” (1988), livro em que regista dados biográficos e cantigas de finaçon de Nha Bibinha Cabral, o investigador Tomé Varela da Silva insere entre os anexos uma entrevista com o tocador.

“Iles du Cap-Vert – Les Racines” é um disco de recolhas de música tradicional cabo-verdiana, realizado por Manuel Gomes e editado em 1990, em França, pela editora Playasound. Traz um solo de cimboa com Nho Henrique, naquele que é, possivelmente, o seu único registo. E a provável última cimboa de Nho Henrique pertence ao acervo do Centro Nacional de Artesanato, em S. Vicente.


Por outro, lado, no âmbito do recente movimento musical de apropriação e recriação do batuque, Princesito, um dos nomes da nova vaga, anunciou há tempos – e confirma agora – que no seu disco de estreia aparecerá a cimboa. O disco ainda não foi gravado e o artista não sabe quem irá tocar o instrumento, se o próprio Mano Mendi ou algum dos seus discípulos, caso o projecto do IIPC dê certo e forme novos intérpretes. Ficamos à espera – dos novos tocadores e do disco

Gláucia Nogueira Posted by Picasa
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