terça-feira, julho 11, 2006

Assomada Nocturna: Posfácio de Maria Armandina Maia

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Quando o passado reescreve o futuro

Viver sob o sol é a nossa condição irreversível. E também sob a sua sombra.
José Luís Hopffer C. Almada in “O Parto da Sombra ou Confissões do Autor”, À Sombra do Sol, volume I, Praia,1990

Tendo seguido de perto o trabalho de José Luís Hopffer Almada, como investigador, editor e divulgador da cultura caboverdeana, cumpre-me, antes de mais, registar a qualidade do seu trabalho nestes diferentes domínios, que o tornam um nome de referência no que respeita à difusão do património cultural de Cabo Verde. De facto, a profunda coerência com que tem exercido este ofício de agente cultural em permanente missão, acabou por impor o seu nome, como o de alguém inexoravelmente ligado à tarefa de tornar visíveis as vozes que ainda não vemos.

Esta menção à restante obra de José Luís Hopffer Almada reveste particular importância na leitura de Assomada Nocturna, dado que todo o trabalho poético deste autor se integra numa linha de preservação patrimonial, bem patente nas três publicações anteriores: À Sombra do Sol, volume I e À Sombra do Sol, volume II (Maio de 1990) e Assomada Nocturna (s/d, 1993?).

A edição de Assomada Nocturna, assinada pelo próprio José Luís C. Hopffer Almada, reaparece aqui, sob o mesmo título, não obstante a distância temporal que separa as duas edições.
No entanto, a obra reunida nesta “nova” Assomada Nocturna é-nos apresentada como um único poema, de NZé di Sant’ y Águ, que vem absorver, substituindo-o como uma sua variante mais complexa, o nome literário Zé di Sant’y Águ ,criado em 1978, em Assomada, como “personalidade (....) profundamente ancorada no chão telúrico de Santiago e de Cabo Verde”, nas palavras do autor ortónimo e, aqui, reiterada como “responsável pela escrita poética em crioulo e por aquela poesia lusógrafa de maior substancialidade telúrica ou em que, interrogadas as matrizes da condição humana, se detecte uma indagação estética da universalidade fundada na pretensão de uma autenticidade cabo-verdiana, historicamente situada”. Referindo-se a Zé di Sant’y Águ, diz José Luís Hopffer C. Almada em “O Parto da Sombra(...)”, que esse “heterónimo” (...) simboliza a sacralização dos elementos essenciais da nossa mitologia: os santos (em primeiro lugar o S. Tiago (...) e a Água; a ilha, a raiz do arquipélago. Zé sou eu. Um simples signo de Adão e Eva, petrificados no Piku Ntoni, o patriarcal Monte de Santiago de Cabo Verde”. Santiago, Sant’ Iago, S. Tiago, pois, como premissas histórico, memorialística, telúrica,, toponímica e identitária para a afirmação sustentada da personalidade literária e da respectiva obra. Diz ainda o autor ortónimo, em texto ainda inédito: É essa pretensão de afirmação que é plenamente assumida e incorporada neste livro com a fusão/integração do N (o eu forte e afirmativo, a primeira pessoa do singular cabo-verdiano) e do Zé, associado à vizinhança, à proximidade e à intimidade e que se confunde com o nome próprio e o nome comum (nominho e nome de casa) dos seres humanos do nosso escalavrado chão em cumplicidade com a banalidade das coisas e a vulgaridade dos dias, as quais, por sua vez, se fundem na individualidade identitária do cidadão, do actor social, do autor, do sujeito poético. O NZé, pois, para significar também a busca de uma sacralidade que, sendo um dom cobrado e arrancado ao labor do artífice do verbo, pretende afirmar-se como deliberação de mestria da palavra, como sugere o swahili. Fica pois implicitamente dito que NZé di Sant’y Águ representa uma personalidade poética que se quer plenamente amadurecida e capaz de superar pelo seu aperfeiçoamento a linguagem e a escrita poéticas de Zé di Sant’y Águ, nas suas modalidades lusógrafa e crioulógrafa, superação essa também testemunhada pela aguda maturidade da nova “Assomada Nocturna”, em edição, agora, consideravelmente revista, aumentada e, assim, refeita.

Julgo que valeria a pena aprofundar, noutro espaço que não o deste posfácio, o modo de produção de José Luís Hopffer C. Almada, bem como a integralidade que subjaz à heteronímia que reivindica no seu trabalho poético. A este propósito, sublinho a fundamental importância de “O Parto da Sombra ou Confissões do Autor”, texto de abertura à obra À Sombra do Sol, Volume I, para uma maior compreensão das “várias almas” que sustentam a sua escrita.

Outras pistas poderiam – e deveriam - ser verificadas, na construção do trabalho que aqui nos é apresentado: a dinâmica do mundo rural, não só como contraponto da mundividência urbana, de alguma forma presente na Vila da Assomada, mas ainda como espaço de dupla insularidade, um espaço em que a Assomada, de costas para o mar, é do tamanho do mundo, a sua medida e a sua única proporção.
De igual modo, mereceria um estudo mais alongado a universalidade deste poema, criada a partir de uma geografia íntima e regional. Apesar do muito que já se disse sobre esta matéria, creio que valerá a pena explorar a qualidade literária que se assinala nesta obra, restrita mas não restritiva e, por isso mesmo, capaz de propor uma nova e necessária dialéctica do regional e universal.

A dualidade, entre as indagações, próximas da oralidade, Lembras-te? é ritualmente co-respondida por uma outra voz, indiciada no texto pelas marcas de Todos nós éramos, que intersecta, recria, amplia e transforma o olhar virginal e cristalino dos meninos, as crianças circulares de beleza que povoam a Assomada e a tomam de assalto ardendo vegetalmente, que ocupam um território primordial na economia do poema de NZé di Sant’ y Águ.
As evocações constantes aos meninos com quem cresci, para usar palavras do próprio autor (edição de Assomada Nocturna de 1993), assinalam a função iterativa dos companheiros invocados, Lembras-te?, como testemunhos de uma mundividência tão forte quanto viril, tão insular quanto protectora, tão secreta quanto codificada.
O chamamento do autor é de tal forma imperioso que reescreve o seu tempo, o tempo em que se edificaram, como uma fortaleza, na sua singular condição de crianças sedentas de galgar as exaustas margens das ribeiras para se fazerem árvore do planalto.
Mas os meninos heróis são-no também pela sua constante vigilância, de fisgas retesadas/ fundas preparadas(...) espantando (...) os corvos os macacos as monas, dupla vigilância, aliás, para iludir a severidade da tutela familiar, sem perder nunca de vista o seu cinema paradiso, espaço de sigilo e liberdade.
A voz “outra” contextualiza as personagens e cenários desta infância livre e proibida, estabelecendo-se como paradigma de exigência e rigor históricos, revisitados com o valor acrescentado da maturidade e compreensão de fenómenos que os olhos de meninos da Assomada, bolas velozes apavoradas poderiam apenas pressentir.

É assim de crucial importância procurar na aparente hibridez do deslumbramento da evocação da infância, as linhas doloridas com que ela se coseu. Nem a alegria dos corpos nus, nem a agilidade em galgar espaços, nem as improvisadas jangadas, obliteram os meninos alimentados a batata assada/ café escasso e leite dormido, perante a covarde indiferença/dos senhores dos paços do concelho/ entretidos com o clube/ e as concubinas os jogos de fortuna/e as noites longas da Assomada?

A função evocativa da memória é amplificada pela fidelidade e minúcia exaustivas, enquadradas por uma adjectivação também exaustiva, em que se reiteram o afecto, a generosidade, a audácia e a beleza como elementos preciosos e primeiros, no refazer de uma memória colectiva: Todos nós éramos/guardiões leais das sombras/ de quem estimamos(...) como medor e outros cães/ (...) guardando-nos as covas de milho/os muros das hortas/o branco caiado dos quintais. A fusão dos seus passos com os espaços da natureza, exuberante e quase violenta, de tão quotidiana e banal, confere um movimento vital imanente ao poema:

Todos nós éramos/ espectros tímidos/ circulares de beleza/ ardendo vegetalmente/ ante o mistério da magnólia da madalena/ da gardénia da margarida da dália da rosa/ e das outras plantas/ e das outras flores crescendo/ exuberantes cuidadas nocturnas/ nos jardins da Assomada.

A memória cumpre-se neste texto de modo magistral, a partir da reconstrução “infalível” do lugar de origem, como fundador de um espaço de liberdade e colectividade fulcrais. Mas é o valor acrescentado desta mesma memória que confere ao poema a sua dimensão única, em termos patrimoniais. José Luís Hopffer Almada repõe as suas origens no quadro social e familiar de um Cabo Verde revisto e revisitado:

Todos nós éramos/atentos sedentos ouvintes/dos amigos retornados/aos lugares tantas vezes nomeados/da pátria desfraldada/espectaculares nos seus fatos impecáveis/sapatos polidos cabelos luzidios/tristes porém e amedrontados/pelo olhar condescendente meticuloso/ dos parentes dos primos metropolitanos/ sobre os éres pouco carregados/ na sua timidez ultramarina e insular/os is resplandecentes de Santiago/pavoneando-se estranhos e pardos/ entre o reboliço vário/o esquisito bulício de Lisboa/ dos colégios internos/ do exílio de nós.

À luz da sua função testemunho, este “guardador de rebanhos” chega ao lugar de infância sem nunca de lá ter saído, com a mesma ternura e a mesma fragilidade com que o viveu. Mas também com “o outro olhar”, a outra voz, dolorosa consciência de si e do mundo que o leva a intercalar os territórios da infância com a sua inexorável interpretação.
O diálogo entre as vozes Lembras-te? e Todos nós éramos não visa estabelecer uma função dicotómica, mas antes uma unidade (pro)funda, uma circularidade épica entre todos os momentos vividos, na sua candura iniciática ou na sua condição de solilóquios de pedras nuas/velando a geometria encarcerada da vida.

No monodiálogo entre as duas vozes, que mais não são do que o outro de si, vai impor-se, de forma crescente e visível, um território crítico e audacioso, em que se renova a tessitura da insularidade e da emigração:
Todos nós éramos emigrações/inscritas no esqueleto das montanhas/navios de todos os atlânticos/ancorados na fisionomia/raquítica e contorcida/das purgueiras ao sol/da rala vegetação/nas raízes da fome e da carestia.

José Luís Hopffer C. Almada e NZé di Sant’ y Águ constroem assim uma dupla invencível, capaz de restaurar uma dinâmica algo saturada entre “o partir e o ficar”, de que se tem alimentado muita da crítica sobre a cultura caboverdeana.
Mantendo intactos os lugares e figuras que lhes pertencem, como pedras basálticas, desfilam perante o leitor, num rosário de contas cuja litania quase se ouve, as histórias de vidas mínimas, vidas de ninguém que nunca fariam história, se não pertencessem a este lugar que José Luís Hopffer Almada consagra no poema, na intenção evidente de salvar do esquecimento todos quantos pertencem àquela origem, por mais desviados ou inglórios que tenham sido os seus caminhos como esse relojoeiro lendário hermafrodita/temido incendiário das casas da pobreza/da cobardia e da rotina do quotidiano/por seis anos escorraçado do convívio/da decência dos homens honrados/ e da intimidade da folhagem/do poilão da boa entrada.

Neste texto, lucidamente contemporâneo, refazem-se (e reconciliam-se?) outras trágicas dimensões da humanidade roubada, aqui evocada com uma integridade que tornam este livro um objecto precioso, pelo resgate de heróis a que deu vida, através de uma senda luminosa que conduz o tempo ao Tempo:
navegando lestos/quais pérolas do oceano/sulcando ríspidos/sobre os morgadios/ e sobre a infame ousadia/dos que podem mercadejar/ com os tempos de ser Tempo/nas noites longas da Assomada.

Está assim cumprido o desígnio desta Assomada Nocturna, a assinalar um marco literário, um legado que NZé di Sant’ y Águ nos pôs nas mãos no dia em que (por acaso ou destino?) se assinala a Independência de Cabo Verde.


Maria Armandina Maia
Lisboa, 5 de Julho de 2005 Posted by Picasa
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