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terça-feira, junho 06, 2006

A propósito de Abraão Vicente em Paris


Numa das visitas a CV, vindo de Barcelona Abraão tinha me confidenciado o projecto que tinha em mente. Um projecto fotográfico, temático sobre Cabo Verde. Conhecendo hoje melhor o artista dá para perceber que na altura a ideia já era sólida e o objectivo era real. Ou seja era para sair mesmo. E isto tudo, dentro de uma série de outros projectos que pretende FAZER.

Casa da Cultura também saiu. E como ele mesmo tem dito, conseguiu um programa simples e de agrado sobretudo da comunidade artística. Eu acrescentava, hoje muita gente espera pelas quintas feiras para assistir ao “nta mora li”…porque há ali claramente um misto de ousadia, de diferença e sobretudo, nota-se a paixão que empresta aos cerca de 60 minutos do programa.

Há uns dias atrás, recebi um telefone do Vicente dizendo que tinha sido seleccionado para a mostra fotográfica em Paris. Hoje entendo, a tal “participação afirmativa” que Abraão menciona na entrevista ao www.asemana.cv.

Son di Santiagu deixa aqui uma admiração por este caboverdiano que vive a sua arte, pesquisa diariamente, tem objectivos e sabe onde quer estar e com quem.
De certeza, esta ida a Paris não vai ser apenas mudar de ares.

O resto sim, é tudo farsa.

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Deixo aqui o texto do projecto escrito pelo autor.
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Cabo Verde - Spritu Lebi

Sobre os fundamentos de Cabo Verde Rituais de Vida e morte, O momento da Tabanka e “Nouvelles Africaines”06#SET 04- OUT 01
Inspirado pela curiosidade, necessidade de iniciar, construir uma relação intima com Cabo Verde, por isso com sua gente, sua história e suas representações, lancei-me a caminho, guiado por algumas linhas rascunhadas numa folha onde se podia ler: “Cabo Verde Grande Reportagem”. No corpo do texto original inscrito o cordel no qual me deveria apoiar para fotografar. Além do ambicioso recto de “desconstruir os lugares comuns e de se arquitectar pelo olhar próprio( o olhar do homem caboverdiano) uma autocrítica, uma autorepresentação através da constituição de um arquivo de imagens caracterizando Cabo Verde nas sua mais variadas vertentes. O projecto Cabo Verde, Grande Reportagem tem como objectivo principal contribuir para a construção de uma memória fotográfica do país, através de um roteiro traçado a toda extensão do seu território, constituir um arquivo de imagens que abarque tanto os vestígios do inicio da historia das ilhas como acentuar a testemunha da realidade de hoje.” Eram também claras os grandes temas, diz o texto, Ideia base: Fotografar as dez ilhas de cabo verde na sua vertente: - Paisagem Natural; - Paisagem humanizada; - O homem Caboverdiano: - Retratos; - Imagens do dia a dia;
Naturalmente pus me a caminho, não sem antes realizar, como se exige num trabalho comprometido com a qualidade, um exercício de documentação. Pus-me a par dos olhares já derramados sobre a realidade caboverdiana e fiz minhas opções acerca dos ângulos a partir dos quais quero enfocar a reportagem: o homem caboverdiano e a cultura ( por cultura entendo todas as práticas enraizadas no dia a dia como instituições representativas de uma determinada comunidade: como se comemora o nascimento e a morte, a indumentária, a família, o trabalho, manifestações colectivas de cultura: Tabanka, Batuque, Funáná,, Cola San Djon(...) entre outros encontros sociais). O meu interesse em todas as práticas culturais centra-se nas suas carga Simbólicas. Contudo tornou-se ainda imperativo tomar mais uma decisão epistemológica: que vertente fotografar: a pública ou a privada/ intima? Face à evidencia do já existente e à total inexistência de documentação fotográfica sobre Cabo Verde nessa perspectiva, instintivamente optei pela vereda do espaço intimo, pelo simbólico, o que resta depois de eliminar-mos as representações. Assim como em todo o projecto de investigação o meu objecto de estudo foi tomando contornos próprio, foi limitando-se como tema e estruturando-se como conceito, assim pouco a pouco se foi construindo o grande tema sobre o qual actualmente conduzo a reportagem: Cabo Verde Rituais de Vida (spritu lebi). Dois autores de base: Sebastião Salgado (fotografo brasileiro) e Graciela Iturbine, o primeiro pela vertente documentalista e a segunda pelo poder simbólico e sociológico das suas imagens.

O momento da tabanka

Dentro do conceito acertado para a reportagem certamente Tabanka. Tabanka porque acredito que as ideias têm poder e força para agir sobre o homem, sobre a cultura e sobre a sociedade. Porque todo o trabalho cultural requer um mínimo de compromisso com uma determinada forma ou sistema de saber. As minhas poucas certezas resumem-se a convicção de que o resultado final da reportagem será consequência de uma pesquisa especializada para interrogar a própria natureza da Tabanka.

Qual é a constituição da Tabanka, como fotografar esse espaço intimo que por certo alimenta seus momentos auges, quem faz a Tabanka, como se constrói seus momentos, como se define os espaços simbólico no “jogo” da Tabanka, como se estabelece as relações de hierarquia e poder entre os seus membros.

É inútil o trabalho do olhar fotográfico debruçado na incerteza de uma definição do seu objecto, neste caso a Tabanka, perdido na impossibilidade do reconhecimento da Tabanka como a manifestação de um saber. Momento da Tabanka porque sua prática não é uma aventura imprevisível, um jogo sem fim, com regras sendo inventadas a todo momento, sem ganhador nem perdedor. Momento da Tabanka porque a afirmação da mesma como uma herança cultural, como a passagem de um testemunho, como a revelação de um momento que não existe como acto de circunstância, mas sobretudo como uma sequência de espaços/tempos que narram e descrevem a própria cultura como espaço de intimidade em contraposição com o espaço público. A Tabanka como cultura espiritual do povo caboverdiano, tabanka como património vivo e de identidade nacional.

Assim plagiando os propósitos gerais do Cabo Verde Grande Reportagem Rituais de Vida (Spritu Lebi), Momento da Tabanka tem por objectivo edificar um documento fotográfico único sobre a Tabanka com vista a promover uma maior aproximação/ conhecimento dos caboverdianos face à vivência da Tabanka nos seus espaços íntimos, ou seja conhecer em primeira pessoa os rostos e história de quem da corpo á tabanka. Por outro lado construir um documento que sirva á promoção da imagem do país no exterior através da promoção concreta do seu património cultural mais enraizado na história. Assim Momento da tabanka é documentação fotográfica de: Indumentárias, acessórios e suas variantes; Instrumentos, Retratos dos homens, mulheres e crianças da Tabanka, Espaços de tabanka; Através da representação fotográfica desses aspectos o alvo principal é lançar uma luz sobre os campos simbólicos do “jogo da Tabanka”.

Abraão Vicente Posted by Picasa

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